Boletim de ocorrências #25
Agora estou no trem. Dentro do trem. Estamos atrasados, ainda sem os passageiros, então aproveitei pra tirar o computador e escrever um pouco aqui.
Ontem foi um dia lindo, de sol e calor. Primavera de verdade. Não aquela primavera com neve, da semana passada. Encontrei F., A.A., M. e L. para um sorvete. E uma cerveja.
Mas antes disso... bom, antes disso eu resolvi sair para tirar uma foto. Uma foto de mim. Em uma dessas máquinas que tiram fotos automáticas. Só que é uma máquina diferente. Do estúdio Harcourt, que tira fotos de artistas famosos. A foto da máquina sai no estilo das fotos dos artistas de cinema, em preto e branco, com luzes e sombras. Glamour.
Para fazer essa foto glamourosa, antes de sair, tomei banho, lavei o cabelo, passei uma camisa branca e peguei tudo o que poderia precisar para ficar apresentável nesta foto. Estava calor, mas carreguei um casaco de couro pra completar o look. E uma camiseta, para vestir depois da foto. Gente! Toda uma função pra tirar a foto na máquina automática. Dá pra sentir a expectativa que eu estava com essa foto, né? E você se pergunta: “mas por quê?”
É que eu resolvi tirar uma foto, porque em breve é meu aniversário. E há dez anos atrás eu tinha feito uma foto dessas, gostei bastante e pensei que seria legal fazer outra pra ver a diferença entre as duas imagens.
A diferença entre as duas imagens... A diferença...
Na minha inocência, achei que a diferença entre as duas imagens seria quase imperceptível. Afinal, eu não mudei tanto assim. Até achei que estaria mais bonito agora do que há dez anos.
Há dez anos, foi um momento de mudança, um ano especial. Desde o meu aniversário, várias coisas foram acontecendo na minha vida e ela foi se transformando de forma bastante concreta. Para melhor. E simbolicamente, para mim, essa foto que eu tirei antes do aniversário foi o emblema dessa transformação. Da época em que, enfim, comecei a virar adulto.
Só que este ano, deu ruim. Tenho impressão que desde a qualidade do papel da foto até o contraste do preto e branco, tudo deu errado. Sem falar no modelo, é claro. Cada vez que olho pra foto, tenho vontade de gritar. Monstruoso. É a palavra que me vem à mente. Seria possível que minha cabeça tenha mudado de forma? Será que estou com uma dessas doenças que fazem os ossos se deformarem, aumentarem? A posição do rosto, meio de lado, que no espelho deixa meu nariz bonito, não deu nenhum efeito. O corte de cabelo, que eu estava gostando tanto, parece curto demais pro tamanho da minha cabeça. A barba branca demais. As sobrancelhas brancas demais. Tudo. Tudo errado.
Na foto original, de dez anos atrás, estou com o rosto bem de frente para a câmera. Talvez seja essa a diferença. Talvez eu deva tirar outra foto, com esse mesmo ângulo. Mas não pode ser apenas isso. Minha imagem, nessa foto, me faz pensar em algo feito de metal, de pedra. Duro. Grande. Pesado. Obtuso. Sim, a cabeça, pesada demais, pende para o lado. Os traços duros no rosto, mostram que não há mais flexibilidade em mim. Tenho medo de pensar do que esta foto vai ser o emblema. Que presságios ela traz para os próximos anos.
Certamente
não vou ter coragem de publicar a foto no dia do meu aniversário. Eu, que
queria elogios surpresos de admiração, agora estou com medo de receber elogios
constrangidos de piedade. Então hoje, aqui, talvez, mas talvez não, coloque o
eu de dez anos atrás. O eu que estava em processo de mudança e crescimento. Se
preparando para florescer e viver, enfim, a vida de gente grande.

deu um zoom na pupila?
ResponderExcluirIsso... vamos dizer que essa imagem é um zoom da minha pupila. kkkkk
Excluir🤣🤣🤣🤣🤣 Muito Dédedédê!Faz mais de 10 anos que não te chamo assim! Kkkk..
ResponderExcluirQuase 20 anos...!
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