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Boletim de Ocorrências #48

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Hoje me vieram algumas palavras. Palavras da infância. Um vocabulário que em parte tem origem na colonização do sul do Brasil. Alemães, italianos, portugueses. Mas também os bugres devem ter contribuído. Nunca entendi direito, os bugres é uma forma pejorativa de chamar os índios? Sei, índios, agora, também é uma forma pejorativa de chamar os povos indígenas. Ali ás, acho que não se diz mais povos indígenas, mas nações indígenas. Mas voltando aos bugres. Talvez seja a mestiçagem dos indígenas com outros povos. Dos colonizados com os colonizadores. Dos invadidos com os invasores. Entre as palavras e expressões que me vieram hoje, está o de vereda , do qual já falei aqui , que é rápido, imediatamente. Mas na mesma linha tem o debalde , que minha tia gostava de empregar jocosamente como debarde à toa , o que seria uma espécie de pleonasmo, já que debalde significa inutilmente, em vão. Eu estava ali, debarde à toa, quando decidi escrever esse boletim. Um fristick é um lanchinho. Há ...

Boletim de Ocorrências #47

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Quando foi que eu perdi a cabeça de novo? Não, não é isso. Quando foi que minha cabeça se separou do corpo mais uma vez? Isso. É isso. Nunca fui decapitado, nem guilhotinado. Apenas dividido. Tinha uma época em que eu era divido em dois. Tinha eu e tinha o meu corpo. Eu, era do pescoço para cima. O resto era o corpo que me carregava. Ou talvez o corpo que eu tinha que arrastar comigo como aquelas bolas de metal amarradas nos pés dos prisioneiros nos desenhos animados. Pra poder me deslocar eu precisava levar aquele corpo. Então aquele corpo não tinha coração, não tinha sexo, não tinha plexo. Não tinha identidade. Tinha fome, isso sim, sempre. Não conseguia respirar, às vezes. E tinha desejos, de tempos em tempos. Desejos que eu, a cabeça, não permitia aflorarem em estado de lucidez. Tinha que estar quase dormindo. E nessas horas, aquele eu pré-adolescente imaginava o corpo sendo impedido de se movimentar, exposto, vulnerável. Usado e abusado. À mercê. Meu estranho paraíso par...

Boletim de Ocorrências #46

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Precisava descansar, ele pensou. Logo depois, se deu conta que não estava trabalhando tanto assim, mas que o cansaço vinha do mesmo jeito no fim do dia. Os olhos secos de passar o dia mirando a tela do computador, ou do telefone, sem fazer nada de específico. Apenas, literalmente, cansando a vista. Cansando a vista nas redes sociais que de sociais não tinham muita coisa. O deixavam isolado do mundo, fechado em casa, mirando a tela e arrastando a lista de conteúdos infinitos. Conteúdos que também não continham muita coisa. Eram mais formas do que conteúdos. Formas ou fórmulas? As mesmas formas sem conteúdo, repetindo uma fórmula com pequenas variações. Mas não era apenas a rede social. Também tinha o computador, os textos que queria escrever. Que estava escrevendo. Seriam também formas sem conteúdo? Ou conteúdos sem forma, que não encontram o seu lugar? Justamente, estava dando forma para este conteúdo e tentando produzir o seu lugar. E com muita disciplina. Regularmente. Qu...