Boletim de ocorrências #21
Putz, mas do quê eu queria falar hoje? Saí da terapia cheio de ideias, de frases, de parágrafos. E não anotei. Era sobre o quê? Tinha algo a ver com pagar as dívidas emocionais. Que não dá pra comparar coisas incomparáveis. Por exemplo, uma compensação financeira não compensa realmente uma dívida emocional. E isso não significa necessariamente que um é maior ou mais importante que o outro. Apenas não são comparáveis.
É confuso, mas juro que tinha frases e parágrafos perfeitos na minha cabeça. Hoje foi um daqueles dias que pensei que não teria assunto na terapia. Quando a psicóloga passou na sala de espera, ela me perguntou se eu me incomodava que a sessão começasse com 5 minutos de atraso. Eu disse que tudo bem. E na minha cabeça, continuei a frase: “de qualquer forma, não tenho nada pra falar, hoje”. E para me contradizer, não fechei a matraca, durante toda a sessão.
Um dos assuntos foi esse blog. A relação entre minhas expectativas de popularidade e, ao mesmo tempo, o bem que está fazendo colocar essas coisas, às vezes insignificantes, pra fora. Olhar para elas. Olhar para esses pensamentos aleatórios e criar uma narrativa entre eles. Alfabetizá-los, como disse a terapeuta. Fazer eles terem forma e significado. Criar um fio, se a gente quiser voltar para o tema obsessivo do fio. Um dia explico aqui minha história de fio na oficina do teatro do soleil. Outro dia.
Agora, relendo que não fechei a matraca, pensei na matraca. O que seria? Sei que é um objeto que faz barulho. Mas e o que mais? Procurei. É um instrumento de madeira, com um ferro curvilíneo que, quando sacudido produz som. Adorei isso. Quando sacudido produz som. É exatamente o que me acontece na terapia e aqui no blog. Essas coisas têm me sacudido e eu estou produzindo som. Tentando fazer barulho. Mas tem mais. A matraca é um idiofone. Ou idiófono. Um instrumento cujo som é produzido pela própria vibração. Não é genial, isso? Coisas estão me sacudindo, e eu estou produzindo barulho resultante de minha própria vibração. Segundo o wikipédia: “É o próprio corpo do instrumento que vibra para produzir o som, sem a necessidade de nenhuma tensão”. Muito poético, não? Mas não chegaria a dizer que não preciso de nenhuma tensão. Tem certas coisas tensas nessa história. E é exatamente, talvez, a raiz dessa tensão que eu esteja procurando aqui nestas páginas vazias.
Aliás, falando em raiz, idio quer dizer próprio. Idiofone é aquilo que produz o próprio som. Idiota é o que só se interessa por seus assuntos próprios, privados, se afastando da vida pública. Interessante, né? Quer dizer que, etimologicamente, um idiota é um idiota, um estúpido, um imbecil, um parvo, um pateta, porque pensa apenas em si, sem se preocupar com o que é coletivo. Assim, não é falso dizer que tem muitos idiotas na esfera pública. E mesmo nos altos círculos do poder público.
Então, para não ser um idiofone idiota, estou compartilhando minhas histórias e minhas questões próprias com vocês. Estou tornando-as públicas e tentando encontrar o que tem de público nelas. Para combater as tendências idiotas deste idiofone que vos fala. E também, para ver se, quem sabe, elas sacodem e fazem vibrar outros instrumentos por aí.
Bom, eu juro, mais uma vez, que tinha outras coisas pra dizer hoje, que estavam prontinhas e muito bem escritas na minha cabeça. Faltou apenas eu anotar ou gravar um áudio para mim mesmo. Talvez elas voltem, um dia desses.
Por enquanto, era isso. Até amanhã.

Amei esse boletim. Acho que foi o que mais me fez vibrar. Obrigada.
ResponderExcluirSerá que estamos na "même longueur d'onde"?
ExcluirQuando "não temos o que falar " é quando mais temos que falar! Vibre muito sempre! Adoro essas vibrações. Me fazem sorrir, pensar, vibrar e matar as saudades.
ResponderExcluirBendito fruto entre as mulheres deste blog, amingo vibrante, você também me sacudiu com suas escritas.
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