Boletim de ocorrências #36

Olhando minhas notas sobre assuntos aleatórios que passaram pela minha cabeça e que poderiam virar um boletim, encontrei “marcas das queimaduras”.

E daí que sim, tenho algumas marcas de queimaduras pelo corpo, algumas com histórias que eu lembro, outras não, mas a pergunta que fica é: o que eu queria dizer com isso?

Queimaduras de cigarro? Tenho uma de quando era criança, acho, entre os dedos de uma mão. Nem saberia mais dizer em qual mão, pois a pele já não está tão lisinha quando eu gostaria. Digamos, mão direita.

Quando pequeno era cercado por fumantes. Minha tia fumava, minha mãe, de forma intermitente, mas intensa, meu pai sempre e muito. Lembro da camada espessa de fumaça pairando na sala de casa, entre o sofá e a televisão. Então, ser queimado por um cigarro é algo que poderia acontecer facilmente com uma criança que circulasse por esse ambiente familiar.

Queimaduras de sol? Temos. Acho que até os 12 anos, mais ou menos, cada ida à praia nas férias de verão era seguida de fortes queimaduras que davam febre e impediam de dormir, de se vestir e sobretudo, de continuar indo à praia, tomar banho de mar das dez da manhã às cinco da tarde. Mas mesmo nesses dias de pausa, tinha o prazer de arrancar tiras enormes de pele descamada por todo o corpo. Nos ombros, no rosto, nas costas. Arrancar pele, esperando o picolezeiro passar. Depois disso, passei muitos anos fugindo do sol. Agora, fiz as pazes com ele.

Água fervendo. Sim. Um dia, fazendo macarrão, esvaziei a água da panela para o lado errado. Na perna, ao invés da pia. Corri para o hospital e cuidaram de mim com um olho na perna e outro na tela de televisão. É que não era um dia qualquer. Era um dia de copa do mundo. Na hora do jogo. Jogo da França com o Brasil. A França ganhou.

Mas o que tudo isso tem a ver? Pra quê eu queria falar de marcas das queimaduras? Não sei, não lembro. Seria bom pensar em complementar minhas notas, não? Ser um pouco mais preciso. De qualquer forma, acho que não tenho mais nada anotado. Acabaram-se os assuntos. Amanhã... surpresa total!

Será que eu queria falar de marcas de queimaduras, como de experiências que deixam a gente marcado para sempre? Coisas que nos acontecem, que caem sobre a gente e nos mudam de forma epidérmica? Nos forjam, criando uma nova carapaça ou um novo véu sobre a nossa realidade?

Mas daí, já fica muito metafórico e eu não sou muito bom em interpretar metáforas. Sou melhor em interpretar as coisas não-ditas do que aquelas ditas dando voltas. Quer dizer, interpretar não, inventar sentidos para o que não foi nem ao menos dito e já sair discutindo comigo mesmo.

Agora lembrei de várias conversas com a Fê, nos anos 90. Em algum momento, invariavelmente, pra entender o que ela estava querendo dizer, eu precisava perguntar: em que sentido? E a resposta era sempre a mesma. Invariavelmente: no sentido figurado.

Olha só, não aprendo, mesmo! Acabei de pensar em um assunto para os boletins: “trancar a porta do banheiro”. Assim, sem nenhuma explicação. Depois, quando pegar as notas, não vai saber o que queria dizer com isso. A não ser que...

A não ser que, talvez, eu não quisesse dizer nada com isso. Talvez não haja nenhuma mensagem oculta por trás disso. E o trabalho de escrever esses boletins seja justamente o de descobrir porque trancar a porta do banheiro deveria ser mencionado aqui.

Então, hoje, deixo aqui as marcas das queimaduras. Apenas. Sem respostas. Sem sentido. Ou, senão, talvez, no sentido figurado.

Comentários

  1. Até hoje......🥰

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    1. Hum... não sei se entendi direito seu comentário, Fer, mas não vou perguntar em que sentido você quis dizer isso 🤣 ❤️

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  2. Como sempre, adorei te ler! E me peguei num certo momento às gargalhadas lembrando: “J’ai attrapé /Un coup de soleil/(…)/Te vejo nua/Sob o cetim…” 😂🤣😂

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    1. Será que essa música foi um presságio de que eu ia começar a trabalhar com tradução? 🤣😂🤣😂

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