Boletim de ocorrências #79

Então... como começar? Como recomeçar? Com o assunto que tinha planejado há tempos ou com o que sair na hora? 

O assunto impossível de ignorar é a calamidade ambiental, econômica e humana que assola o mundo e particularmente meu estado, no Brasil. Mas hoje, vou começar falando o que tinha pensado e depois a gente vê o que sai. Aos trancos e barrancos. Como sempre.

É que hoje é uma data muito importante. Não porque é meu aniversário, mas porque este aniversário representa a metade da minha vida, de certa forma.

Peraí, não é bem assim. Não é a metade da minha vida, do total que eu vou viver nesta terra. Aliás, tenho quase certeza que não. Já devo estar mais pra lá do que pra cá, nesta linha do tempo aí. Hoje, ao completar 48 anos, me dei conta que passei metade da minha vida no século XX e metade no século XXI. Bem simétrico, como eu gosto.

Isso significa que a partir de agora, cada dia que passa deveria me tornar cada vez mais um cidadão do século XXI. Um indivíduo que terá vivido mais tempo neste século do que naquele que terminou há 24 anos.

Só que não é assim que eu me sinto. Não me sinto um ser do século XXI. Quando penso em mim, penso em alguém que pertence ao século XX. Por que será?

Mais alguém por aqui já pensou nisso? Se alguém reconhece ou sabe explicar essa sensação, porfa, se manifeste!

Seria porque foi a época da minha infância, do início da minha vida adulta? A época na qual tive a maior parte dos meus aprendizados mais básicos? Falar, andar, descobrir e interagir com cada novo elemento do mundo à minha volta, criar um grupo de amigos... Tudo o que permitiu moldar e construir quem eu seria depois. Quem eu sou hoje. O André do futuro.

Ou seria porque, no meio desse caminho, eu saí do meu país e deixei lá várias coisas, pessoas, lembranças que, para poderem continuar na minha jornada, foram preservadas em um estado cristalizado, de memória. Não vi elas evoluírem e acabei me ancorando nesse tempo em que estavam mais presentes na minha vida.

Ou talvez essa sensação venha simplesmente do fato que eu não uso muito as redes sociais, não uso muito os... os... ia dizer “artefatos”, mas daí realmente parece que venho das cavernas. Não uso muito os instrumentos! Pronto, não uso muito os instrumentos, as tecnologias que o século XXI me oferece e, como tudo muda muito rápido, não acompanhei e fiquei preso no modo de vida do século passado.

Agora lembrei de outra coisa. As expectativas que eu criei durante a minha infância, do que seria a minha vida no século XXI. E nem estou falando dos carros voadores, teletransporte, viagens intergalácticas. Não. Quando eu era pequeno eu pensava que aos 24 anos, quando começasse o século XXI eu teria uma vida normal e bem resolvida. Casa, carro, filhos, trabalho... Pois é.

Imagina a decepção quando começou o século e eu não tinha terminado a faculdade, não tinha trabalho remunerado, não conseguia pagar um aluguel sozinho e jantava massa com salsicha! Sem falar no fato de que mirei na família tradicional brasileira e acertei na Gaiola das loucas. Mas pelo menos neste aspecto da vida a realidade é muito melhor do que as minhas expectativas de criança.

Enfim, era isso! Meu aniversário. Meio de agora, meio do século passado. Meia calabresa, meia quatro queijos. Como o visconde partido ao meio, minhas duas metades parecem estar em guerra sem se dar conta que poderiam avançar unidas.

Fui.

Comentários

  1. Querido que alegria te ler! Não sei bem se é porque tu escreve com tanta presença de espírito que sinto como se estivesse contigo. Se bem que acho que como bom escutador, não falaria assim em monólogo. O fato é que é teu aniversário, estou no meu segundo despertar e recebi tuas palavras com muita alegria. Como não lembrava mais a senha do email que sempre uso, tive que modificar. Não sei se me sinto mais do século XX do que do século XXI, terei que averiguar na minhas memórias acashicas kkkk esse assunto dá pano pra manga e como esse não é o meu blog, vou só dizer que tive um sonho revelador e quando acordei tinha um recadinho teu. Obrigada por fazer parte da minha vida desde sempre. Longe e tão pertinho. Um forte abraço e até a próxima página vazia.te amo!!

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    1. ❤️ os anos vão passando, e a gente atravessando o século, sempre conectados... amo!

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  2. And, siga escrevendo por favor! Não pare!
    Siga o seu diário extimo !

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  3. Sim... saudades de te ler por aqui...
    Será que é porque retomei um antigo processo de criação, que passava - que volta a passar - por um mergulho no gouffre, por um terceiro espaço... ?
    E que teus escritos nutrem esse processo desde sempre?
    Tá, é um pedido meio egoísta, talvez... ou talvez não?
    Abraço.

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    1. Passava, volta a passar... passado, presente, futuro... meu processo também está querendo dar voltas :)

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