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Boletim de ocorrências #92

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Bem, agora que sou um senhor de 50 anos, o que fazer? Imagino que, desde a semana passada, tudo o que eu diga ou faça, qualquer forma de expressão que venha de mim, seja uma lição de vida. Um exemplo de sabedoria, um aprendizado para quem estiver me vendo, me escutando ou me lendo. É isso que acontece, não? Não é assim? A gente não se torna automaticamente um ser superior que, após meio século de amadurecimento, sai do casulo pronto para iluminar tudo ao nosso redor e transformar o mundo em um lugar melhor e mais bonito de se viver? No que depender de mim não garanto estar à atura desta missão inata de todo ser humano, mas vou fazer o que estiver ao meu alcance. Por enquanto, o que está ao meu alcance é bastante simples: avançar sem atrapalhar os outros. Não ser a pedra no caminho de ninguém me parece já ser algo que, se não faz o mundo se tornar melhor, pelo menos não faz dele um lugar pior. Ficar quieto também me parece bem. Não preciso dar minha opinião sobre tudo o que me cerca...

Boletim de ocorrências #91

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Quando você ler estas palavras, eu não estarei mais aqui. Não estarei mais aqui na frente do meu computador. Há chances de eu estar no alto de uma montanha, na borda da cratera de um vulcão. Observando as entranhas da terra, talvez em ebulição, talvez subindo lentamente, talvez se preparando para cuspir destruição no que está entorno. Ou então, estarei sentado em um banco de pedra, observando à distância irmãos em um duelo mortal, heróis descendo aos infernos ou o sacrifício de virgens inocentes. Também posso estar simplesmente como um corpo abandonado a beira-mar, deitado na areia sob o sol. Ou flutuando nas águas azuladas do mediterrâneo. Sim, você entendeu. Estou passando meu aniversário na Sicília. Além dessas possibilidades que eu mencionei, tem muitas outras coisas que vou fazer aqui na Itália e que podem se resumir em duas palavras: arancini e gelato. Ou seja, farniente , dolce vita, mangia che te fa bene . Já faz alguns anos que no dia do meu aniversário, realizo um ...

Boletim de ocorrências #90

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Ultimamente, tenho pensado bastante no futuro. E o que é o futuro? Doença e morte. Pelo menos, morte, é o futuro certo de todo mundo. Desculpe, não queria pesar o clima. Sei que para as pessoas que frequentam o blog, este tema pode ser um gatilho. Estamos em uma idade em que a morte já faz parte da vida, não é mais aquela coisa distante, que a gente nem consegue imaginar direito. Agora, nos demos conta, a coisa existe mesmo, é real. Que seja a própria morte ou a das pessoas queridas que temos em volta. E estes momentos são extremamente difíceis de atravessar e transformadores. No meu caso, uma das etapas desta experiência são as páginas vazias. Quando mencionei o futuro, não estava pensando necessariamente em morte, mas em como as coisas vão ser quando eu ficar velho. Será que vou ter um infarto, um câncer, será que vou quebrar a bacia, perder um braço, uma perna, a memória? Bem, admito que não é com esse tipo de reflexão que vou deixar a conversa mais leve. Mas me pergunto como e...

Boletim de ocorrências #89

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Segundo uma lenda, ou uma mentira, se você preferir... não, digamos: segundo uma crença antiga, os cisnes brancos passavam a vida inteira mudos e antes de morrer proferiam um canto que concentrava toda a beleza que esses animais representam. Mesmo que seja notório que isso não é verdade, já que os cisnes não são mudos, nem cantam antes de morrer, essa imagem do último canto do cisne continua sendo empregada para ilustrar a obra prima final de um artista, ou uma manifestação derradeira e notável de alguma coisa, antes de ela desaparecer. Tem outro canto do cisne, a peça curta do Tchekhov, onde um velho ator, em fim de carreira, fica preso no teatro depois de uma apresentação e passa a noite conversando com um contrarregra que, sem ter onde morar, dorme nos camarins. Durante esta conversa o ator interpreta magistralmente os personagens que lhe deram glória no passado e, no fim ( para você que gosta de spoiler ), morre. Acho que é mais ou menos essa, a sinopse. Assisti a essa peça com a...

Boletim de ocorrências #88

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Gente, eu estou cansado! Parece que a vida não quer me dar férias. Logo eu, que só queria ficar tranquilo. É uma das minhas únicas ambições. Faz certo tempo que uma angústia súbita, intensa e debilitante toma conta de mim. Aquele tipo que a única vontade é de parar, sentar-se no chão, chorar e não precisar levantar nunca mais. Ou então sair gritando, arrancando os cabelos, as roupas, correndo até o fim do mundo. Dar uma de louco, como se diz. Qualquer estratégia é válida para não enfrentar algumas realidades. Isso deve ser uma tendência de personalidade minha, ou uma construção lenta e bem sedimentada ao longo dos anos. Por fora, todo mundo me acha calmo. Por dentro, sempre fui uma pessoa nervosa e tensa. E isso cansa. Mas agora tem algo mais. Talvez esteja relacionado com a vida de adulto, com a morte do meu pai, mais precisamente com o fato de não poder contar com mais ninguém para resolver os meus problemas. Não estou dizendo que meus pais resolviam todos os meus problemas. ...

Boletim de ocorrências #87

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Olhando minhas notas... e lembrei daquele filme “Soylent green”. Esse filme dos anos 70, se passa em 2022, então já podemos entender que como todo filme futurista, este também é sobre o fim da aventura terrestre, do qual j á  falamos  aqui . E qual é o futuro apocalíptico previsto nos anos 70 para 4 anos atrás? Não me recordo direito dos detalhes. Vou dar uma olhada na sinopse para completar o quadro. Atenção, você teve mais de 50 anos para assistir a este filme, não venha reclamar de spoiler! Naquele 2022 distópico, a situação mundial é o resultado de guerras, efeito estufa, poluição, pobreza, superpopulação, fome e esgotamento dos recursos marinhos e terrestres. Ou seja, totalmente ficcional. Nossa realidade no mundo de 2020 incluía também uma pandemia. Neste contexto, as pessoas (que pessoas? o povo, né... leia-se os proletários) têm pouco acesso à comida e água potável. Uma maçã, uma geleia, uma birita, um bife, ou até um sabonete são artigos de luxo, reservados aos ...

Boletim de Ocorrências #86

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Estou na minha pausa. Fechado em uma cabine, dentro do trem. Uma cabine reservada aos passageiros “elite”, aqueles que são mais do que primeira classe, mais do que classe executiva. Aqueles que podem reservar uma cabine isolada dos outros ricos mortais. Tudo bem, tem gente que precisa trabalhar em paz durante a viagem. Ou fazer uma reunião. Ou acertar os detalhes de um contrato milionário. Quem nunca? Mas o que eu queria falar hoje era outra coisa. Nada a ver com trem, com elite, com classe. Ou então, com um outro tipo de classe. Queria falar de como acho feio quando alguém está fazendo alguma coisa enquanto caminha. Por exemplo, comer enquanto caminha. Falta de classe. Fumar enquanto caminha. Também. Bom, na verdade, agora só me vêm estes dois exemplos. Mas acho essas coisas feias. Talvez porque a pessoa não está cem porcento na sua ação. Está dividida entre duas coisas que mereceriam a sua atenção de forma mais completa. Parar para comer, saboreando, ao invés de mastigar ...

Boletim de ocorrências #85

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Voltando para casa pela rua perpendicular, chego naquela esquina de um restaurante icônico, chez Arsène, j á  fechado quando mudei para este apartamento, h á  mais de dez anos, mas cujo interior permanece intacto, como um arquivo, uma reminiscência de tudo o que acontecia ali nas décadas passadas. Ou como se, de um dia para o outro, fosse preciso passar a chave na porta e fugir, abandonando tudo como estava: a louça por lavar, a garrafa d' água pela metade, o pão em um saco sobre a mesa. Deixar tudo para tr ás. Do outro lado da rua, vejo um pequeno grupo de homens, de cócoras. Do meio desse pequeno grupo de homens de c ó coras, sobe uma nuvem de fumaça que vem em minha direção. Penso nos vendedores ambulantes de espetinho que se instalam na saída do metrô e me preparo para sentir aquele odor típico de defumado, mas o perfume se dispersa antes de chegar até mim. Daquele grupo, dois homens se levantam e vão embora deixando dois outros ali, deitados no meio da rua. Um deles, in...

Boletim de ocorrências #84 (parte 2)

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Será? Será que eu estava mesmo sendo agredido ? Mas por que não fiz nada para impedir? Aguentei até o fim, sendo atravessado por uma avalanche de sentimentos e pensamentos confusos em relação ao massagista, mas também a mim mesmo e que se acumulavam em uma massa caótica. Vergonha. Dúvida. Medo. Humilhação. Culpa. Irritação. Incredulidade. Ressentimento. Mais do que aguentar até o fim: quando saí da posição de bruços para continuar a massagem na parte anterior do corpo, tentei mostrar um rosto tranquilo e relaxado, com o leve sorriso descontraído que exibem aqueles que não estão sendo mortificados. Mantive os olhos fechados para evitar mostrar o que estava sentindo. Espelho da alma, dizem. Achei que essa minha atitude acalmaria o massagista, que ele a interpretaria como um elogio por seu trabalho e suspenderia minha pena. Mas o efeito, se realmente houve algum efeito, foi contrário. A massagem continuou sendo violenta e, agora, ele também se atacava ao meu rosto. Espremia com energi...