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Boletim de ocorrências #90

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Ultimamente, tenho pensado bastante no futuro. E o que é o futuro? Doença e morte. Pelo menos, morte, é o futuro certo de todo mundo. Desculpe, não queria pesar o clima. Sei que para as pessoas que frequentam o blog, este tema pode ser um gatilho. Estamos em uma idade em que a morte já faz parte da vida, não é mais aquela coisa distante, que a gente nem consegue imaginar direito. Agora, nos demos conta, a coisa existe mesmo, é real. Que seja a própria morte ou a das pessoas queridas que temos em volta. E estes momentos são extremamente difíceis de atravessar e transformadores. No meu caso, uma das etapas desta experiência são as páginas vazias. Quando mencionei o futuro, não estava pensando necessariamente em morte, mas em como as coisas vão ser quando eu ficar velho. Será que eu vou ter um infarto, um câncer, será que vou quebrar a bacia, perder um braço, uma perna, a memória? Bem, admito que não é com esse tipo de reflexão que vou deixar a conversa mais leve. Mas me pergunto com...

Boletim de ocorrências #89

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Segundo uma lenda, ou uma mentira, se você preferir... não, digamos: segundo uma crença antiga, os cisnes brancos passavam a vida inteira mudos e antes de morrer proferiam um canto que concentrava toda a beleza que esses animais representam. Mesmo que seja notório que isso não é verdade, já que os cisnes não são mudos, nem cantam antes de morrer, essa imagem do último canto do cisne continua sendo empregada para ilustrar a obra prima final de um artista, ou uma manifestação derradeira e notável de alguma coisa, antes de ela desaparecer. Tem outro canto do cisne, a peça curta do Tchekhov, onde um velho ator, em fim de carreira, fica preso no teatro depois de uma apresentação e passa a noite conversando com um contrarregra que, sem ter onde morar, dorme nos camarins. Durante esta conversa o ator interpreta magistralmente os personagens que lhe deram glória no passado e, no fim ( para você que gosta de spoiler ), morre. Acho que é mais ou menos essa, a sinopse. Assisti a essa peça com a...

Boletim de ocorrências #88

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Gente, eu estou cansado! Parece que a vida não quer me dar férias. Logo eu, que só queria ficar tranquilo. É uma das minhas únicas ambições. Faz certo tempo que uma angústia súbita, intensa e debilitante toma conta de mim. Aquele tipo que a única vontade é de parar, sentar-se no chão, chorar e não precisar levantar nunca mais. Ou então sair gritando, arrancando os cabelos, as roupas, correndo até o fim do mundo. Dar uma de louco, como se diz. Qualquer estratégia é válida para não enfrentar algumas realidades. Isso deve ser uma tendência de personalidade minha, ou uma construção lenta e bem sedimentada ao longo dos anos. Por fora, todo mundo me acha calmo. Por dentro, sempre fui uma pessoa nervosa e tensa. E isso cansa. Mas agora tem algo mais. Talvez esteja relacionado com a vida de adulto, com a morte do meu pai, mais precisamente com o fato de não poder contar com mais ninguém para resolver os meus problemas. Não estou dizendo que meus pais resolviam todos os meus problemas. ...

Boletim de ocorrências #87

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Olhando minhas notas... e lembrei daquele filme “Soylent green”. Esse filme dos anos 70, se passa em 2022, então já podemos entender que como todo filme futurista, este também é sobre o fim da aventura terrestre, do qual j á  falamos  aqui . E qual é o futuro apocalíptico previsto nos anos 70 para 4 anos atrás? Não me recordo direito dos detalhes. Vou dar uma olhada na sinopse para completar o quadro. Atenção, você teve mais de 50 anos para assistir a este filme, não venha reclamar de spoiler! Naquele 2022 distópico, a situação mundial é o resultado de guerras, efeito estufa, poluição, pobreza, superpopulação, fome e esgotamento dos recursos marinhos e terrestres. Ou seja, totalmente ficcional. Nossa realidade no mundo de 2020 incluía também uma pandemia. Neste contexto, as pessoas (que pessoas? o povo, né... leia-se os proletários) têm pouco acesso à comida e água potável. Uma maçã, uma geleia, uma birita, um bife, ou até um sabonete são artigos de luxo, reservados aos ...

Boletim de Ocorrências #86

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Estou na minha pausa. Fechado em uma cabine, dentro do trem. Uma cabine reservada aos passageiros “elite”, aqueles que são mais do que primeira classe, mais do que classe executiva. Aqueles que podem reservar uma cabine isolada dos outros ricos mortais. Tudo bem, tem gente que precisa trabalhar em paz durante a viagem. Ou fazer uma reunião. Ou acertar os detalhes de um contrato milionário. Quem nunca? Mas o que eu queria falar hoje era outra coisa. Nada a ver com trem, com elite, com classe. Ou então, com um outro tipo de classe. Queria falar de como acho feio quando alguém está fazendo alguma coisa enquanto caminha. Por exemplo, comer enquanto caminha. Falta de classe. Fumar enquanto caminha. Também. Bom, na verdade, agora só me vêm estes dois exemplos. Mas acho essas coisas feias. Talvez porque a pessoa não está cem porcento na sua ação. Está dividida entre duas coisas que mereceriam a sua atenção de forma mais completa. Parar para comer, saboreando, ao invés de mastigar ...

Boletim de ocorrências #85

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Voltando para casa pela rua perpendicular, chego naquela esquina de um restaurante icônico, chez Arsène, j á  fechado quando mudei para este apartamento, h á  mais de dez anos, mas cujo interior permanece intacto, como um arquivo, uma reminiscência de tudo o que acontecia ali nas décadas passadas. Ou como se, de um dia para o outro, fosse preciso passar a chave na porta e fugir, abandonando tudo como estava: a louça por lavar, a garrafa d' água pela metade, o pão em um saco sobre a mesa. Deixar tudo para tr ás. Do outro lado da rua, vejo um pequeno grupo de homens, de cócoras. Do meio desse pequeno grupo de homens de c ó coras, sobe uma nuvem de fumaça que vem em minha direção. Penso nos vendedores ambulantes de espetinho que se instalam na saída do metrô e me preparo para sentir aquele odor típico de defumado, mas o perfume se dispersa antes de chegar até mim. Daquele grupo, dois homens se levantam e vão embora deixando dois outros ali, deitados no meio da rua. Um deles, in...

Boletim de ocorrências #84 (parte 2)

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Será? Será que eu estava mesmo sendo agredido ? Mas por que não fiz nada para impedir? Aguentei até o fim, sendo atravessado por uma avalanche de sentimentos e pensamentos confusos em relação ao massagista, mas também a mim mesmo e que se acumulavam em uma massa caótica. Vergonha. Dúvida. Medo. Humilhação. Culpa. Irritação. Incredulidade. Ressentimento. Mais do que aguentar até o fim: quando saí da posição de bruços para continuar a massagem na parte anterior do corpo, tentei mostrar um rosto tranquilo e relaxado, com o leve sorriso descontraído que exibem aqueles que não estão sendo mortificados. Mantive os olhos fechados para evitar mostrar o que estava sentindo. Espelho da alma, dizem. Achei que essa minha atitude acalmaria o massagista, que ele a interpretaria como um elogio por seu trabalho e suspenderia minha pena. Mas o efeito, se realmente houve algum efeito, foi contrário. A massagem continuou sendo violenta e, agora, ele também se atacava ao meu rosto. Espremia com energi...

Boletim de occorrências #83 (parte 1)

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Bem... continuando minha busca pela pérola rara, pela ideia genial que vai me servir de gatilho criativo, consultei novamente as anotações no meu grupo de trabalho. Em 2 de janeiro de 2023 tem um áudio de dois minutos. Mas em janeiro de 2023 começou a segunda temporada do blog. Então diversas das próximas anotações já foram comentadas. Esse áudio, especificamente, é sobre o sonho que me deu vontade de recomeçar o blog, na época. Falei dele aqui . Então vou fazer uma pausa nestas mensagens e falar de algo que me aconteceu esta semana e ficou engasgado no meu coraçãozinho. Algo estranho. Perturbador. Tudo começou como uma bela tarde de sábado... várias atividades estavam previstas neste dia, desde o café da manhã até o anoitecer. Era nosso aniversário. 13 anos. Bodas de alguma coisa. O número 13 poderia ter me feito suspeitar do que pairava sobre este evento. Que algo errado estava para acontecer. Mas não sou supersticioso. Não com o n ú mero 13. Pois... no início da tarde fomos fa...

Boletim de ocorrências #82

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Mas o que mais se encontra na minha caverna de Ali-BaBa? Fiquei curioso para explorar, em ordem cronológica, as mensagens do meu grupo secreto. Vejamos: uma senha de wifi; um anúncio de aluguel de apartamento; uma dica de local para visitar na Bahia... ah, voilà ! Um áudio. Um não, dois! Enviados ao meio-dia e três minutos do dia 23 de dezembro de 2022. O primeiro, dura 23 segundos. O segundo, 15. Mas são uma decepção. Um, sobre um assunto que já falei no blog. As expressões em inglês que invadem o dia a dia e me irritam profundamente. É uma mania do mundo institucional, empresarial, profissional, mas que tem invadido todos os interstícios da vida como aquela sujeira persistente entre duas lâminas de parquê. Nesse áudio, eu menciono especialmente a substituição das equipes e grupos pelos “teams” e “staffs”. Me dá um azedinho nos olhos quando escuto. Sim, estou virando um velho chato e reacionário. Bem... se alguém foi uma criança chata, um jovem chato, um adulto chato, não t...