Boletim de ocorrências #92

Bem, agora que sou um senhor de 50 anos, o que fazer? Imagino que, desde a semana passada, tudo o que eu diga ou faça, qualquer forma de expressão que venha de mim, seja uma lição de vida. Um exemplo de sabedoria, um aprendizado para quem estiver me vendo, me escutando ou me lendo. É isso que acontece, não? Não é assim? A gente não se torna automaticamente um ser superior que, após meio século de amadurecimento, sai do casulo pronto para iluminar tudo ao nosso redor e transformar o mundo em um lugar melhor e mais bonito de se viver?

No que depender de mim não garanto estar à atura desta missão inata de todo ser humano, mas vou fazer o que estiver ao meu alcance. Por enquanto, o que está ao meu alcance é bastante simples: avançar sem atrapalhar os outros. Não ser a pedra no caminho de ninguém me parece já ser algo que, se não faz o mundo se tornar melhor, pelo menos não faz dele um lugar pior.

Ficar quieto também me parece bem. Não preciso dar minha opinião sobre tudo o que me cerca. Na verdade, salvo exceções como este blog, acho que não sou muito de falar o que penso sobre as coisas, pessoas e situações. Provavelmente mais por preguiça do que por convicção.

E claro, ninguém se transforma completamente da noite para o dia. Quer dizer, até pode, mas é mais fácil um vinho se tornar vinagre do que a água virar vinho, como já comentei por aqui.

Falando em transformações inesperadas, tive sonhos muito estranhos esta noite. E muito realistas. Enfim, realistas na sensação porque de resto era tudo sem pé nem cabeça. Sei que não faz sentido nenhum contar os sonhos. Só é interessante para quem sonhou. A não ser que eu conte um conto... mas hoje, ainda não estamos nesta fase. Desculpe.

Estou de pé, conversando com outras pessoas também de pé, em uma espécie de ateliê. Trata-se de uma entrevista de emprego que estou passando (Jesus, por quê?). O lugar é tipo o museu do Louvre ou uma grande loja de departamentos. Eu sou uma travesti. Em um momento da entrevista, a responsável larga meu currículo e me pergunta se eu já tinha me prostituído. Para ganhar tempo, olho minhas mãos, cheias de anéis, antes de levantar a cabeça e responder.

“Fiz tudo o que foi preciso para chegar até aqui”.

A entrevistadora aquiesce com um sorriso. Também explico que, na Europa, tinha sido cabelereira, me tornei gerente e que, finalmente, abri meu próprio salão. A entrevista é encerrada, pois um desfile de alta costura vai começar no local. Duas estagiárias me acompanham até a saída. Corremos alegremente, de mãos dadas, passando por grandes portas e atravessando salões temáticos até chegarmos a um espaço onde elas procuram um presente para mim. Me falam que é de praxe dar uma lembrancinha para as pessoas que vêm ao ateliê. Uma roupa, um acessório... Escolhem um colar de design contemporâneo, que colocam no meu pescoço. Me olho no espelho e gosto do que vejo. As pedrarias pretas combinam com meu vestido.

Acabou por aí. Não sei se consegui o emprego, mas tenho uma intuição que sim.

Então... voltando ao assunto. Fases de transição icônicas pelas quais passamos na vida. Neste meio século, existem muitos momentos que eu gostaria de ter vivido diferente. Muitas situações pelas quais eu preferia não ter passado. Coisas que não faria igual, se tivesse a oportunidade de voltar atrás.

Será? Para ser sincero, agora, agora mesmo, estou contente de estar aqui, ser aqui. De ter feito tudo o que foi preciso para chegar até aqui. E com outras escolhas, seria uma outra vida. Então, acho melhor aceitar e acolher o que passou e deixar as decisões diferentes para o resto do percurso.

Você não sabe o quanto eu caminhei...

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