Boletim de ocorrências #85
Voltando para casa pela rua perpendicular, chego naquela esquina de um restaurante icônico, chez Arsène, já fechado quando mudei para este apartamento, há mais de dez anos, mas cujo interior permanece intacto, como um arquivo, uma reminiscência de tudo o que se passava ali nas décadas passadas. Ou como se, de um dia para o outro, fosse preciso passar a chave na porta e fugir, abandonando tudo como estava: a louça por lavar, a garrafa d'água pela metade, o pão em um saco sobre a mesa. Deixar tudo para trás.
Do outro lado da rua, vejo um pequeno grupo de homens, de cócoras. Do meio desse pequeno grupo de homens de cócoras, sobe uma nuvem de fumaça, que vem em minha direção. Penso nos vendedores ambulantes de espetinho que se instalam na saída do metrô e me preparo para sentir aquele odor típico de defumado, mas o perfume se dispersa antes de chegar até mim.
Daquele grupo, dois homens se levantam e vão embora, deixando dois outros ali, deitados no meio da rua. Um deles, inerte. O outro, se contorcendo de um lado para o outro no chão. A fumaça que eu tinha percebido antes está, na verdade, saindo do corpo dele. Como se estivesse com um carvão em brasa por dentro da camisa.
Entre pensamentos confusos, me digo que os outros abandonaram estes dois homens ali porque já era muito tarde para salvá-los. Sem refletir muito, também sigo meu caminho.
Alguns passos à frente na direção do meu prédio, avisto um homem de pé, estático, no meio da rua. De costas para mim, chapéu preto, sobretudo preto, calça preta. Saindo dos interstícios de suas roupas percebo volutas de fumo, formando um halo em torno de seu corpo. Como se ele estivesse se desfazendo em fumaça.
É apenas neste momento que levanto os olhos e tenho uma visão mais panorâmica da rua. Da esquina até o horizonte, tudo parece coberto de um filtro acinzentado e opaco. Um caminhão de bombeiros recolhe seu material. Do prédio na diagonal do meu restam apenas escombros carbonizados e fumegantes.
A primeira coisa em que penso é ligar para o Jérôme. Contar para ele. Tento correr para casa, mas meus passos são lentos. Minhas pernas estão pesadas. De borracha. De chumbo. Quando finalmente consigo me aproximar do meu prédio, me dou conta que dali também sai aquela fumaça de um grande incêndio que acaba de ser combatido.
Não pode ser... é a única frase que me vem à mente. E antes de conseguir ter qualquer reação, acordo.
Suado. Nervoso. Envolto em uma sensação de tragédia, de catástrofe. Mas sim, foi apenas um sonho ruim. Um sonho estranho.
*
Este é o tipo de plot twist (ou reviravolta, para os reacionários) que, dependendo de como é apresentada, pode me irritar muito em uma narrativa. Mais que irritar, me sinto quase humilhado por ter tido alguma empatia com uma situação que não era real (como se alguma situação de um filme, mesmo documentário, ou de qualquer obra de arte fosse real). Mas quando se trata dos meus próprios pesadelos, a sensação é quase oposta. Fico maravilhado por conseguir me emocionar com algo que é simples fruto do inconsciente. Chorar durante um bom momento, na madrugada, pela perda de um ente querido até me dar conta aos poucos que algo não fecha, que a situação não faz sentido, que a pessoa em questão está bem vivinha. É uma espécie de descarga catártica de sentimentos acumulados. Uma necessidade fisiológica. Um alívio.
Então, espero não ter irritado ninguém, por aqui. Mas vai que entre os leitores desta página, encontrem-se bruxas, psicoterapeutas e outros seres capazes de interpretar sonhos. Alguém vai talvez poder me explicar por que no meu sonho deixei para trás, sem nenhuma hesitação e quase com indiferença, duas pessoas praticamente em brasas.
É grave, doutor?

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