Boletim de occorrências #83

Bem... continuando minha busca pela pérola rara, pela ideia genial que vai me servir de gatilho criativo, consultei novamente as anotações no meu grupo de trabalho. Em 2 de janeiro de 2023 tem um áudio de dois minutos. Mas em janeiro de 2023 começou a segunda temporada do blog. Então diversas das próximas anotações já foram comentadas. Esse áudio, especificamente, é sobre o sonho que me deu vontade de recomeçar o blog, na época. Falei dele aqui.

Então vou fazer uma pausa nestas mensagens e falar de algo que me aconteceu esta semana e ficou engasgado no meu coraçãozinho. Algo estranho. Perturbador.

Tudo começou como uma bela tarde de sábado... várias atividades estavam previstas neste dia, desde o café da manhã até o anoitecer. Era nosso aniversário. 13 anos. Bodas de alguma coisa. O número 13 poderia ter me feito suspeitar do que pairava sobre este evento. Que algo errado estava para acontecer. Mas não sou supersticioso. Não com o número 13.

Pois... no início da tarde fomos fazer uma sessão de massagem balinesa juntos. Tudo lindo. Sauna a vapor, antes, e uma hora de massagem, depois. Dia de princesa. Eu estava contando os horas para este momento. Adoro massagem, mas fazia um ano que não sentia mãos profissionais apertando meu corpo.

E quando digo “apertando” não exagero. Tenho os músculos muito tensos. Costumo dizer que não preciso de um massagista, preciso de uma britadeira.

A sessão começou. Estávamos lado a lado, cada um com seu massagista. Enquanto eu ouvia os sinais da massagem ao lado (a pressão, a respiração, a intensidade), do meu lado, nada acontecia. Quer dizer, sim, alguém espalhava óleo no meu corpo, subindo lentamente, com movimentos suaves, quase imperceptíveis. No início, pensei que os massagistas iriam se revezar, mas com o passar dos minutos, 10, 20, 30, tive que encarar os fatos: minha massagem se resumiria um carinho irritante.

Era para ser um momento especial. Não quis ser o cara chato que reclama de tudo. Me censurei e não falei nada. Por dentro, na minha cabeça, eu não parava de resmungar. Me dei conta que a necessidade de uma massagem forte, quase dolorosa, talvez seja o que me permita silenciar o burburinho mental, sair dos meus pensamentos e das minhas ansiedades.

Pois... em algum momento, se aproximando dos ombros, o massagista me diz para relaxar. Aproveito a deixa e comento que ele poderia fazer mais pressão. Ele contesta algo, não lembro exatamente o quê, e eu insisto: “pode fazer mais pressão, em geral”.

A partir daquele instante, ele não fez apenas mais pressão na massagem, ele despejou todo o seu ódio no meu corpo. Ódio não sei de quê, mas tenho algumas suposições. Da sua vida, do seu trabalho, das pessoas que frequentam o spa, da exploração do proletariado, do sistema capitalista, da humanidade. O que quer que seja, era intenso. E fazia mal. Muito mal. 

Tenho hábito de massagem. De massagem forte. Como já disse, gosto de sentir a pressão nos pontos de tensão, a dor daquele stress acumulado sendo combatido. Mas ali não era dor. Era sofrimento.

Tive a impressão de que ele subiu nas minhas costas, apoiando seu peso nas minhas vértebras de uma maneira que me fazia pensar que eu estava com a vida em risco. Em algum momento, cheguei a pensar que era disso que eu precisava para afastar o barulho mental: me preocupar com a minha sobrevivência. Mas não. Ali, algo para além da massagem estava acontecendo. Ele agarrava meus músculos como um beliscão raivoso que me machucava de verdade. Ele estava me punindo.

Mais uma vez, fiquei quieto. Por muitas razões. Novamente, não quis ser a pessoa inconveniente que atrapalha uma ocasião especial. Mas também não quis dar o braço a torcer e admitir que era demais. E sobretudo, fiquei com medo de represálias por me manifestar novamente. Fiquei com medo da reação do massagista. Fiquei com medo e comecei a entender que eu estava sendo agredido.

[continua] 

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