Boletim de ocorrências #81

"Cultura com cu maiúsculo."

Pois é. 

O grupo de whatsapp onde registrei esta frase foi criado em meados de 2015, em princípio, para organizar algum evento. Depois do dito evento, o grupo tornou-se inútil, descaracterizado. Um tempo depois, dei um golpe de Estado e decidi excluir quem ainda vagava por ali. Fiquei sozinho. Soberano. Poderoso. Ditador.

Com trocas de telefone, perdi várias mensagens do meu império. O que restou, começa no fim de 2022, mais precisamente dia 4 de dezembro, com esta frase, enviada primeiro em francês e logo depois em português: “La culture avec un grand cul

A frase é prosaica, mas não deixa de ser engraçada. Será que copiei de algum lugar? O que ela me inspirou naquele momento e o que ela me inspira hoje?

Enfim, hoje, já é outro dia. Pensei em muitas coisas com relação a esta frase quando a redescobri. Hoje, não lembro de mais nada. Me pergunto o quê, de tão interessante eu teria para dizer sobre a cultura, sobre esta sensação que me vem frequentemente de uma substituição da produção cultural (popular ou erudita, tudo igual para mim) pela produção de conteúdo, que a gente consome como todo o resto, rápido e em grande quantidade

Agora, agora mesmo, só consigo pensar na ex-ministra da cultura da França, que aguarda a sentença em um processo de corrupção e tráfico de influência. Para melhorar a imagem e preparar sua candidatura como prefeita de Paris (ou presidente do país, vai saber) ela deu uma volta no caminhão de lixo mostrando como está conectada com a realidade popular. Tudo devidamente registrado e publicado nas redes sociais, é claro.

E por falar em cultura, esta senhora já tinha sido ministra de um outro governo, ministra da justiça na época, durante o mandato do presidente que recentemente passou 3 semanas na cadeia e assim que saiu, lançou um livro intitulado “Diário de um prisioneiro”.

É... a ironia é uma arte que nem todos dominam.  

Parece que a cultura com cu maiúsculo está na boca do povo.

Francamente, essa gente (da política e as elites em geral) deve uma certeza inabalável da nossa total incapacidade a reagir. Eles contam com o fato de que somos bombardeados com tanto absurdo que estamos completamente anestesiados. Porque, se não, a guilhotina já era para estar comendo solta, como se diz.

"Mas o que tem a ver o cu com as calças?", como dizia minha mãe. Qual a relação disso com o fato de eu voltar a escrever? Nenhuma, espero. Acho que quando mencionei pela primeira vez a CU-ltura, eu não tinha um projeto tão ambicioso, tão preciso, tão concreto quanto ser coberto de louros pela minha escrita. Sim, é isso. Durante muito tempo, meu grupo comigo mesmo servia apenas para anotar ideias, frases de efeito, sonhos, coisas para falar na terapia ou escrever no blog.

Hoje em dia, não estou mais na terapia. Mas preciso. Urgente.

O blog estava enferrujando de abandono. Bem... estou aqui, tentando.

E falando em sonhos, esta noite tive um sonho bizarro. Sobre o quê? Não sei, só sei que foi assim: eu estava com a Isabelle Huppert e fazíamos coisas loucas, violentas, escatológicas. Dignas de um filme do David Cronenberg dos anos 1990. Gostaria de contar em detalhes mas, obviamente, não lembro mais.

Aliás, há alguns meses, estive com a Isabelle Huppert na vida real. Não fizemos coisas loucas, violentas ou escatológicas. Nem coisas, sensatas, doces ou telúricas. Não fizemos nada. 

E escatológico não está relacionado apenas com excrementos, né. Também é uma doutrina sobre o que vem depois do fim do mundo, depois do fim da humanidade, ou seja: “o fim da aventura humana na terra”. E segundo uma importante corrente escatológica da CU-ltura, depois que estiver “toda a terra reduzida a nada, não há nada mais que o céu azul pra gente voar.”

“É o final da odisseia terrestre.”

“Eu sou Adão e você será...”

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