Boletim de ocorrências #82

Mas o que mais se encontra na minha caverna de Ali-BaBa? Fiquei curioso para explorar, em ordem cronológica, as mensagens do meu grupo secreto.

Vejamos: uma senha de wifi; um anúncio de aluguel de apartamento; uma dica de local para visitar na Bahia... ah, voilà! Um áudio. Um não, dois! Enviados ao meio-dia e três minutos do dia 23 de dezembro de 2022. O primeiro, dura 23 segundos. O segundo, 15.

Mas são uma decepção.

Um, sobre um assunto que já falei no blog. As expressões em inglês que invadem o dia a dia e me irritam profundamente. É uma mania do mundo institucional, empresarial, profissional, mas que tem invadido todos os interstícios da vida como aquela sujeira persistente entre duas lâminas de parquê. Nesse áudio, eu menciono especialmente a substituição das equipes e grupos pelos “teams” e “staffs”. Me dá um azedinho nos olhos quando escuto.

Sim, estou virando um velho chato e reacionário.

Bem... se alguém foi uma criança chata, um jovem chato, um adulto chato, não tem grandes chances de se tornar um velho legal.

Atenção, não estou necessariamente dizendo que sempre fui uma pessoa chata. Acho até que sou legal em algumas ocasiões. Mas com o passar do tempo, tem mais chances de uma pessoa legal se tornar uma pessoa chata, do que uma pessoa chata se tornar uma pessoa legal, não? E no fim das contas, o mundo vai ter mais gente chata do que legal. É isso.

O segundo áudio fala de academia. Alguém lembra daquela música? “Tem que correr, tem que suar, tem que malhar...”. Nada a ver com o assunto. É que às vezes, enquanto eu fazia meu aquecimento no elíptico, eu via uma mulher caminhando na esteira e ficava completamente fascinado com ela. Vidrado. Não conseguia parar de olhar. Me sentia hipnotizado, atordoado, maravilhado com o que ela fazia. Explico: enquanto ela caminhava, num ritmo bastante rápido e constante, o olhar dela pulava em todas as direções possíveis, como se estivesse escrutando todos os cantos, ou sendo surpresa por dez mil coisas a cada minuto. Como se houvesse várias moscas vindo na sua direção e com um olhar certeiro ela matava cada uma delas antes de ser atacada. Um olhar de kung-fu.

Desenvolvi diversas teorias sobre o caso dela. Imaginei que visualizasse os problemas do cotidiano e, com o movimento na esteira, fosse resolvendo ou buscando soluções de forma muito rápida. Ou então, como aquele meme da Nazaré Tedesco fazendo equações, que ela estivesse sem entender nada do que aparecia à volta dela.

Das duas, uma: ou ela está encontrando fórmulas para resolver cálculos matemáticos de extrema dificuldade, o cérebro funcionando a mil, como um rubik’s cube em alta velocidade, ou ela está cercada por alucinações visuais.

O mais provável, é que essa mulher tivesse algum tique nervoso. Que com o ritmo regular dos passos na esteira ela baixasse a guarda e sem perceber, o corpo ia fazendo estes movimentos de maneira incontrolável e talvez até inconsciente. Ou seja, nada de especial.

Estranho mesmo é o fato de eu nunca ter visto essa mulher em outra situação. Nunca a vi chegando na esteira, saindo da esteira, utilizando algum outro aparelho além da esteira. Nunca a vi fazendo outra coisa além de caminhar na esteira revirando os olhos. É de se perguntar se ela existe fora da esteira. É de se perguntar se ela existe. É de se perguntar se não sou eu quem está tendo alucinações visuais enquanto faço meu aquecimento no elíptico, com os olhos vidrados na esteira vazia à minha frente.

Comentários

Espelho, espelho meu, qual o B.O. que você mais leu?

Boletim de ocorrências #05

Boletim de Ocorrências #30

Boletim de ocorrências #68 : ELA, parte 4 [FIM]

Boletim de ocorrências #04

Boletim de ocorrências #01

Boletim de ocorrências #73 : Enciclopédia, parte 2 [K-S]

Boletim de ocorrências #11

Boletim de Ocorrências #24

Boletim de ocorrências #09

Boletim de ocorrências #80