Boletim de Ocorrências #70
Falar aqui, hoje, de passagem do tempo.
Quer dizer, de como eu falho absurdamente em administrar meu tempo livre.
É que passei quatro semanas publicando uma série de textos escritos no ano passado e pensei que com esse tempo livre eu prepararia vários boletins de ocorrência adiantados, pra ficar tranquilo publicando sem stress, nas semanas seguintes.
E o que é que eu fiz? Nada. Não escrevi nenhum boletim e agora estou aqui, correndo na quinta à tarde, pra poder ter um texto pra publicar na sexta de manhã. O tempo passa muito rápido!
Desde que eu sou ferro-moço (steward ferroviário, comissário de bordo no trem, pra quem não entendeu), não consigo mais administrar o tempo. Por exemplo: faz dois anos (ou quatro, não lembro mais) que estou empurrando com a barriga as sessões de reeducação para a tendinite. Por falta de tempo. O papel nem tem mais validade. Se eu quiser fazer as tais sessões, vou ter que passar a vergonha de pedir PELA TERCEIRA VEZ para o meu médico assinar a requisição.
Falei que é por falta de tempo, mas é por falta de organização do tempo. Parece que o tempo passa rápido e, pelo que entendi, isso tem a ver com a idade. Acho que conforme a idade avança a gente materializa o fato de que vai ter cada vez menos tempo (de vida, no caso), nessa impressão proporcional de que o tempo passa mais rápido. Um jogo entre o tempo geral da vida e o tempo específico de cada dia.
E tem um paradoxo, aí. Porque antes, quando eu era jovem (quer dizer, antes dos quarenta), eu fazia mil coisas em um mesmo dia, em mil partes diferentes da cidade. Tudo era cronometrado e eu conseguia fazer tudo, ou quase, desta imensa to do list cotidiana. Agora, que eu sou... digamos... mais velho, pra não dizer velho (embora no meu trabalho de comissário de bordo, eu já seja considerado um “sênior” por causa da minha idade, não pela minha experiência profissional. Ou seja, de ferro-moço, já passei a ferro-velho). Bom, voltando: agora, que eu sou mais velho...
Putz, esqueci o que ia dizer!
Ah sim. Então. Agora, que sou mais velho, eu mal consigo fazer uma única coisa por dia, no meu tempo livre. Se antes, eu ia pra faculdade, na biblioteca, voltava pra casa, ia pra yoga, ensaiava, tomava um chopp e voltava pra casa, tudo isso subindo e descendo pelos quatro cantos da cidade de metrô, de ônibus e a pé, agora, se eu conseguir me organizar pra ir ao supermercado, já é uma vitória.
Pelo lado positivo, eu posso pensar “nossa, então quando eu era mais jovem eu arrasava! Guri multitarefas! Eficaz! Inteligente!”. Mas daí, só pra me humilhar, outro dia vi uma criança fazendo aquele rubik’s cube. Em poucos segundos. Todas as cores. Ao mesmo tempo.
Precisei filmar, para acreditar.
Bom, cada um com a sua inteligência. Cada um que seja bom naquilo que lhe diz respeito. Não posso comparar o ápice da minha produtividade, com a capacidade desta criança organizar cinquenta e quatro quadrados coloridos em um minuto.
É, vamos comparar o que é comparável. Espera pra ver quando essa criança tiver trinta e poucos anos e boletos pra pagar. Daí a gente conversa.
Até porque, agora,
não tenho tempo de discutir. Fui!
.png)
Hahahaha!! Muito bom!! Tou com você nessa "bagunça" que é gerir o tempo após os 40 e sublinho sendo ferro-moça 🤣
ResponderExcluirAh, mas você administra isso linda e docemente :)
Excluir