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Mostrando postagens de março, 2026

Boletim de ocorrências #85

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Voltando para casa pela rua perpendicular, chego naquela esquina de um restaurante icônico, chez Arsène, j á  fechado quando mudei para este apartamento, h á  mais de dez anos, mas cujo interior permanece intacto, como um arquivo, uma reminiscência de tudo o que acontecia ali nas décadas passadas. Ou como se, de um dia para o outro, fosse preciso passar a chave na porta e fugir, abandonando tudo como estava: a louça por lavar, a garrafa d' água pela metade, o pão em um saco sobre a mesa. Deixar tudo para tr ás. Do outro lado da rua, vejo um pequeno grupo de homens, de cócoras. Do meio desse pequeno grupo de homens de c ó coras, sobe uma nuvem de fumaça que vem em minha direção. Penso nos vendedores ambulantes de espetinho que se instalam na saída do metrô e me preparo para sentir aquele odor típico de defumado, mas o perfume se dispersa antes de chegar até mim. Daquele grupo, dois homens se levantam e vão embora deixando dois outros ali, deitados no meio da rua. Um deles, in...

Boletim de ocorrências #84 (parte 2)

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Será? Será que eu estava mesmo sendo agredido ? Mas por que não fiz nada para impedir? Aguentei até o fim, sendo atravessado por uma avalanche de sentimentos e pensamentos confusos em relação ao massagista, mas também a mim mesmo e que se acumulavam em uma massa caótica. Vergonha. Dúvida. Medo. Humilhação. Culpa. Irritação. Incredulidade. Ressentimento. Mais do que aguentar até o fim: quando saí da posição de bruços para continuar a massagem na parte anterior do corpo, tentei mostrar um rosto tranquilo e relaxado, com o leve sorriso descontraído que exibem aqueles que não estão sendo mortificados. Mantive os olhos fechados para evitar mostrar o que estava sentindo. Espelho da alma, dizem. Achei que essa minha atitude acalmaria o massagista, que ele a interpretaria como um elogio por seu trabalho e suspenderia minha pena. Mas o efeito, se realmente houve algum efeito, foi contrário. A massagem continuou sendo violenta e, agora, ele também se atacava ao meu rosto. Espremia com energi...

Boletim de occorrências #83 (parte 1)

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Bem... continuando minha busca pela pérola rara, pela ideia genial que vai me servir de gatilho criativo, consultei novamente as anotações no meu grupo de trabalho. Em 2 de janeiro de 2023 tem um áudio de dois minutos. Mas em janeiro de 2023 começou a segunda temporada do blog. Então diversas das próximas anotações já foram comentadas. Esse áudio, especificamente, é sobre o sonho que me deu vontade de recomeçar o blog, na época. Falei dele aqui . Então vou fazer uma pausa nestas mensagens e falar de algo que me aconteceu esta semana e ficou engasgado no meu coraçãozinho. Algo estranho. Perturbador. Tudo começou como uma bela tarde de sábado... várias atividades estavam previstas neste dia, desde o café da manhã até o anoitecer. Era nosso aniversário. 13 anos. Bodas de alguma coisa. O número 13 poderia ter me feito suspeitar do que pairava sobre este evento. Que algo errado estava para acontecer. Mas não sou supersticioso. Não com o n ú mero 13. Pois... no início da tarde fomos fa...

Boletim de ocorrências #82

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Mas o que mais se encontra na minha caverna de Ali-BaBa? Fiquei curioso para explorar, em ordem cronológica, as mensagens do meu grupo secreto. Vejamos: uma senha de wifi; um anúncio de aluguel de apartamento; uma dica de local para visitar na Bahia... ah, voilà ! Um áudio. Um não, dois! Enviados ao meio-dia e três minutos do dia 23 de dezembro de 2022. O primeiro, dura 23 segundos. O segundo, 15. Mas são uma decepção. Um, sobre um assunto que já falei no blog. As expressões em inglês que invadem o dia a dia e me irritam profundamente. É uma mania do mundo institucional, empresarial, profissional, mas que tem invadido todos os interstícios da vida como aquela sujeira persistente entre duas lâminas de parquê. Nesse áudio, eu menciono especialmente a substituição das equipes e grupos pelos “teams” e “staffs”. Me dá um azedinho nos olhos quando escuto. Sim, estou virando um velho chato e reacionário. Bem... se alguém foi uma criança chata, um jovem chato, um adulto chato, não t...

Boletim de ocorrências #81

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"Cultura com cu maiúsculo." Pois é.  O grupo de whatsapp onde registrei esta frase foi criado em meados de 2015, em princípio, para organizar algum evento. Depois do dito evento, o grupo tornou-se inútil, descaracterizado. Um tempo depois, dei um golpe de Estado e decidi excluir quem ainda vagava por ali. Fiquei sozinho. Soberano. Poderoso. Ditador. Com trocas de telefone, perdi várias mensagens do meu império. O que restou, começa no fim de 2022, mais precisamente dia 4 de dezembro, com esta frase, enviada primeiro em francês e logo depois em português: “ La culture avec un grand cul ” A frase é prosaica, mas não deixa de ser engraçada. Será que copiei de algum lugar? O que ela me inspirou naquele momento e o que ela me inspira hoje? Enfim, hoje, já é outro dia. Pensei em muitas coisas com relação a esta frase quando a redescobri. Hoje, não lembro de mais nada. Me pergunto o quê, de tão interessante eu teria para dizer sobre a cultura, sobre esta sensação que me vem ...