Boletim de ocorrências #80

Do alto de uma colina coberta de neve. Após anos confinado em uma gruta, um eremita decide descer até o povoado para contar a verdade mais profunda, que lhe foi revelada durante seu recolhimento.

*

*

Bem, por enquanto, era isso. Um ponto de partida. Fragmentos, entre tantos. Nada de muito original. Tudo bem. O exercício, agora, seria o de ir colocando pedras neste caminho.

Porque este ano... este ano... quero paz no meu coração...

JESUSA! Esta música saiu do fundo do baú dos meus traumas. Da época em que minha mãe me colocava a cada verão para fazer aulas de violão. Ano após ano, as mesmas notas, os mesmos acordes, as mesmas canções.

Mas isso é história para outro dia. 

Este ano... eu preciso colocar em prática as resoluções.

*

Sem comunhão não há humanidade.

Mas, para dizer a verdade, não tenho resoluções. Não tenho resoluções, mas sei mais ou menos aonde (onde?) devo chegar. Não sei como ir. Não sei o caminho. Não sei se consigo. Mas sei mais ou menos como deveria ser, no fim do processo.

E deveria ser como? Deveria ser eu, quem sabe escrevendo, quem sabe me reconhecendo novamente.

Mas desconfio que sou um pouco idealista. Meu projeto é assim: ir do mais ou menos nada até mais ou menos o prêmio Nobel de literatura. É... fica difícil. Como dar o primeiro passo, sem saber, sem prever, sem refletir sobre cada pequeno passo? Onde (aonde?) ficou aquela história de que o impossível é formado por pequenos possíveis ? E o primeiro passo é qual? Bom... talvez, aprender quando usa “onde” e quando usa “aonde” já seja um bom começo. A regra é fácil, eu sei. Mas eu consigo criar hipóteses que permitem passar um dia inteiro sem que uma palavra sequer tenha sido escrita.

*

Quando enfim se acerca da cidade não distingue seus odores ou seus rumores. Descobre uma planície devastada, mas ainda espera encontrar ali, em meio aos despojos de uma civilização que não reconhece mais, um ser a quem possa se confiar.

*

Mas bom... voltando. Talvez, quem sabe, é só uma dica, mas quem sabe fosse melhor ir pensando em uma estrutura que possa ser preenchida com ideias. Uma estrutura que ajude a ter ideias.

E as ideias que já anotei? Todas as mensagens vocais e escritas que enviei a mim mesmo, no meu grupo, só meu, no whatsapp? Estão ali, esperando... querendo virar contos, crônicas, fábulas. Não vão se desenvolver sozinhas.

*

Nada. Ninguém. Nem um cão restou. Mesmo os pássaros, migrando, se apartavam em meio ao voo, traçando outro caminho e deixando sobre os escombros da cidade apenas o céu de um azul ofuscante.

*

Sim, preciso dar uma olhada nelas. Vou.

Mas hoje não... que já está tarde e isso vai tomar tempo. Que agora tenho coisas para fazer.

Que coisas? Nada, na verdade.

Putz.

*

E vazio. 

Ok. Consultei meu grupo “Ai meu Zeus”.

Em uma abordagem quase arqueológica voltei ao seu início para seguir o fio das mensagens. E qual é a primeira frase inspiradora nesse grupo? O primeiro pensamento genial que vai alavacar a sensibilidade do meu processo criativo?

“Cultura com cu maiúsculo”

Sim. Isso mesmo.

Como se diz no teatro: cai o pano.

Comentários

  1. Adorei! Que bom que vc voltou aqui!!!
    Aonde quer que você esteja, por onde que que vc ande, seguirei te seguindo!!
    Agora aguardo o Cú maiúsculo!

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