Boletim de ocorrências #95
O pessoal está muito instagramável... eu não consigo acompanhar.
Por exemplo, uma coisa que me irrita nos filmes e nas séries é que as pessoas estão sempre com roupa nova, né? Tudo é limpinho, não está amassado nem desbotado. A não ser que o personagem seja um indigente, um drogado, um traficante... uma pessoa normal (o homem médio, como se dizia quando eu estudava direito, lá no meio dos anos 90) vai estar sempre completamente direitinha, sem um fio de cabelo fora do lugar. Claro, tem toda uma produção para a imagem ficar esteticamente agradável, e as marcas estão ali colocando seus produtos para fazer uma publicidade disfarçada, então todo mundo tem que estar bonito, sem nenhuma manchinha. Só que de repente, me dei conta que na rua, na vida como ela é, as pessoas também estão assim, com cara de roupa que está sendo usada pela primeira vez. Talvez, porque dá para comprar tudo na shein. Roupa barata que às vezes você só consegue usar uma vez e já tem que jogar fora. Está tudo novo, sempre.
Eu não sou assim! Talvez seja por isso que falei aqui, outro dia, que eu não sei se tenho um estilo específico. Eu estou deslocado com relação à essa tendência de estar tudo perfeito. Semana passada, encontrei dois amigos em momentos diferentes do dia. Os dois, ao chegarem, me falaram exatamente a mesma coisa: “te reconheci de longe, pela calça”.
Achei engraçado, na primeira vez. Na segunda, comecei a me questionar. Verdade que uso bastante essa calça. Que ela tem uma cor de tijolo, que foge do meu azul-marinho cotidiano. Que já faz uns anos que tenho ela. Mas bem... daí até eu virar aquela pessoa a qual os outros vão se referir como “o André, aquele da calça cor de tijolo”, já é demais! Preciso mostrar o ser humano por trás da calça... ou por dentro da calça, não sei.
Mas não percebo esta instagramização apenas nas roupas. As fotos também são todas lisas, bonitas, todo mundo com pele boa, lábios carnudos. E fica difícil não se comparar e querer ficar assim na vida real. As pessoas tentam se aproximar destes ideais de beleza falsos, carregando na maquiagem, na musculação e nos procedimentos estéticos. O resultado... falso também, mas prefiro não comentar pois é realmente muito distante da minha realidade. Sinto um misto de espanto e inveja. Pessoalmente, eu evito grande parte desses artifícios. Não sei se por convicção ou pão-durice. Com exceção da academia (que, graças à minha disciplina irregular e à minha idade avançada, não vai me deixar com o corpo dos meninos das redes sociais), estou resistindo às tendências.
Por enquanto.
Se eu fizer um selfie... opa, quase escrevi tirar um selfie, como se dizia antigamente “tirar uma foto” ou, pior, “bater uma foto”. Então, se eu fizer um autorretrato, vai ser sem make, sem filtro. Sem artifícios. Uma fotinho simples, gente como a gente.
Acordei de manhã e, entre o crossfit e o wheyprotein com creatina, bati o selfie. Apenas com o botox em dia, a harmonização facial, a permanente de cílios, a bichectomia, o mewing constante, a lente de contato no dente, um preenchimento labial básico para criar um pouco de volume, uma corzinha no cabelo, seis meses depois do implante capilar, a escova progressiva, o mounjaro para a manutenção do anel gástrico. Um glow que vem de dentro! Hashtag nofilter, hashtag nomake, hashtag belezanatural, hashtag autocuidado, hashtag stopagism.
Estou sendo irônico, claro, mas nem tanto assim. Será que em um futuro não muito distante, a gente não vai se sentir apresentável sem tudo isso? Cada geração e cada sociedade aplica as técnicas a que tem acesso para se mostrar da forma mais apreciável possível aos outros. Tudo isso está no espírito do tempo, mas tenho a impressão de estar um pouco inadequado com relação à sensibilidade da minha época. Não consigo seguir. E não sei se quero.
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