Boletim de ocorrências #94

Esta semana eu estava em formação.

Que estranha esta expressão “estar em formação”. Fiquei me imaginando em uma espécie de bolha, como um casulo ou uma bolsa amniótica, e meu corpo desenvolvendo novos órgãos. Me preparando para eclodir. Novo, diferente, transformado.

Talvez eu esteja fazendo uma tradução literal do francês ou talvez a gente diga assim em português também, para explicar que está fazendo um curso. Não sei. Então, esta semana eu estava fazendo um curso. O que não deixa de ser uma espécie de bolha, como eu disse antes. Um espaço e um tempo dedicados ao nosso desenvolvimento e do qual, supostamente, a gente sai transformado. Então é isso mesmo, eu estava em formação.

Uma formação do meu sindicato sobre como combater as ideias da extrema direita no mundo do trabalho. Interessante, não é mesmo? Bem, as ideias da extrema direita estão sendo difundidas cada vez mais e de forma mais intensa, no mundo inteiro. Fica difícil aprofundar o assunto em apenas 4 dias. Antes de desenvolver argumentos para lutar contra, é preciso descobrir uma parte da evolução histórica dessas ideias, a iconografia que gravita em torno delas e as redes que as mantém em ação, hoje.

Daí que, mesmo que ideias racistas e sexistas estejam presentes na sociedade como um todo, na extrema direita elas se tornam valores, princípios a serem defendidos ou almejados intensamente e que se adicionam ao conservadorismo para reforçar as diferenças de classe.

Mas, gente! Não era disso que eu queria falar! Só queria dizer que esta semana eu fiz esse curso sobre extrema direita e lembrei do tio Barão.

E quem era o tio Barão? 

Pois, justamente... não sei.

O tio Barão era um senhor bem velhinho que morava perto da minha casa, um vizinho das minhas primas, na verdade. Ele vivia sozinho (ou com uma assistente, não lembro) em uma casa enorme e a gente gostava de ir lá, de vez em quando. Ele nos recebia muito bem, na biblioteca da casa, com docinhos, chazinhos e, pelo menos para mim, o maior interesse nessas visitas era comer os quitutes que ele nos servia. Enquanto eu ficava apenas de olho no pratinho de guloseimas, ele conversava com a gente, contava coisas que eu não faço ideia do que sejam, mas que talvez minhas primas, mais educadas do que eu, saibam dizer do que se tratavam.

Para minha defesa, posso alegar que era muito difícil entender o que ele dizia. Além daquela voz de senhor bem velhinho, tinha mais um detalhe que eu não mencionei: ele tinha um sotaque muito forte, pois era alemão.

É uma pena eu não ter prestado atenção nas histórias do tio Barão, não ter observado melhor os livros na biblioteca dele, os objetos que o cercavam. Talvez, tivesse evitado muitas questões que me vieram mais tarde e ficaram sem resposta, sobre quem ele era. Minha região tem muitas colônias alemãs, muitos descendentes de imigrantes. Mas ele não fazia parte desta comunidade dos colonos. Vivia sozinho, praticamente isolado, e parecia ter outra cultura.

Então, mais tarde, fiquei me perguntando se o tio Barão tinha chegado no Brasil antes, durante ou depois da segunda guerra. Se ele tinha vindo se esconder nessa mansão escura, se isolar em uma cidade pequena do interior, para fugir da culpa ou fugir da perseguição. Nunca soube se ele foi um sobrevivente ou um algoz. Nunca soube se foi uma vítima ou um instrumento desta máquina de intolerância que é  o nazismo e que, para mim, representa bem a extrema direita.

"Será que ele é? Será que ele é?"

Eu nunca soube e, provavelmente, nunca vou saber.

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