Boletim de ocorrências #96
Relendo o texto sobre os prédios em chamas fiquei me perguntando se era eu quem tinha causado aqueles incêndios.
Provavelmente... o sonho era meu, então eu sou o centro de tudo, né? Além disso, eu tenho um histórico de piromania. Sim. Na minha infância, quase coloquei fogo na casa da irmã da minha mãe. Para a minha defesa, aquele vaso com imensas flores de papel crepon na mesinha perto da janela, quase encostando na cortina que balançava com o ventinho e, sobre a mesa, o isqueiro (ou seria uma caixa de fósforos?) eram um convite, se não uma intimação ao crime.
E eu não estava sozinho. Nana, minha parceira de sempre, da infância e depois da adolescência, estava ali. Cúmplice que, se não aprovava completamente a ideia de queimar as flores de papel da sua mãe, ficou bem grudadinha em mim, apenas observando. Testemunha silenciosa e curiosa, que não me denunciou no momento da investigação familiar que me incriminou e, em seguida, julgou.
Logo depois de apagar o fogo que, como era de se esperar, passou das plantas de papel à cortina, minha tia queria entender o que tinha acontecido. É aí que a Loli entrou em cena. Pequena, metida e cheia de razão, ela analisou as evidências chegando a conclusão que sua irmã mais velha não tinha tomado parte na ação e que a única pessoa que poderia ter cometido o delito era eu.
Diante dos fatos, fiz a única coisa que estava ao meu alcance para manter a dignidade. A fuga. Saí correndo e peguei o primeiro trem que me levava de volta para casa. O trem, no caso, era o dindin, o fumacinha que fazia o trajeto do centro da cidade até o lago negro em uma velocidade de aproximadamente 10 quilômetros por hora. Ou seja, minha evasão estava, na realidade, mais próxima da “Fuga das galinhas” do que de “Prison Break”.
E por que estou contando tudo isso? Porque hoje é o aniversário da Loli, minha delatora da época. Felizmente, nossa relação evoluiu muito desde então. Em algum momento, quando estava entrando na adolescência, a Loli conseguiu transformar nosso vínculo. Ou melhor, conseguiu criar um vínculo entre a gente, que não existia antes. Ela fez isso de um jeito que a caracteriza até hoje: com humor e com amor. Fazendo a gente se sentir acolhido.
Para alguém como eu, que nem sempre teve a impressão de ser aceito como é, isso foi (e continua sendo) muito importante. Bem... para qualquer pessoa, né?
A base de dancinhas desengonçadas, longos vagidos esganiçados e muita ironia, a Loli pouco a pouco se tornou a Primis, e eu me tornei o Primis. Todos os primos, aliás, se tornaram primis. A Nana, a Titi, as Piques (que são gêmeas), o Pipe e o Hique, meu irmão. Toda essa gente que passou parte da infância reunida na casa da Dinda, brincando de pega-pega, esconde-esconde, fita, primo pobre/primo rico, ovo podre e, quando o tio Émerson vinha de SP com a câmera, fazendo filmes que iam dos clássicos ao faroeste... toda essa comunidade ganhou o prefixo “primis”.
Mas entre nós, a Nana, a Loli e o Dedé, esta primandade se desenvolveu como um multiverso, com seu vocabulário próprio (que coloca “primis” em praticamente todas as frases) e suas tradições (mas tudo pode tornar-se algo “tradicional dos primis”, sobretudo se é a primeira e a última vez que a situação ocorre). E a Primis é hoje a minha maior conexão com o sentimento de família.
“Eite, primis de pau!”, escrevo este boletim com os olhos marejados pelas boas lembranças e estripulias. É o tradicional sentimentalismo dos primis.
Para terminar, no seu aniversário, só tenho uma coisa a dizer:
“Minha Primis é uma flor... uma flor”. Te amo.

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