Boletim de ocorrências #16

Alguém mais aqui, tem categorias de roupas? Claro, tem a roupa de ficar em casa e a roupa de sair. A roupa de fazer faxina. A roupa de fazer uma entrevista de trabalho. Roupa de férias na praia. Roupa de dormir. Sim, tem várias categorias. Eu também tenho aquelas roupas que já deviam ter sido aposentadas, mas que continuo usando. Tipo hoje. Estava me preparando para ir para a aula de yoga e, como ia usar uma dessas bicicletas de aluguel, resolvi colocar uma calça um pouco velha, mas que ainda está em uso. Pra não gastar minha calça boa no selim da bicicleta suja. De qualquer forma, era apenas para usar durante o trajeto pois, chegando na academia, já ia trocar por uma bermuda (bem velha, essa também).

A dita calça, é preta, de veludo cotelê, e já está tão gasta que o joelho ficou quase transparente. Outro dia, me olhei o espelho e tive a impressão de ver alguém vestido com um saco velho. Sim, esta calça deveria ser aposentada definitivamente. Mas comigo, não é bem assim. Antes de ela ir embora da minha vida, ela provavelmente vai passar muitos meses, talvez anos, em um limbo, uma espécie de purgatório. Uma gaveta, onde vou deixá-la, pensando que talvez um dia precise dela para fazer uma bermuda, ou uma roupa para usar durante as reformas do apartamento. É isso o que acontece aqui. Mas não imediatamente. A partir do momento em que decidi aposentar a peça, vou usar uma última vez e, ao invés de jogar fora logo, lavo para colocar na gaveta. Mas se não tomar cuidado, coloco de volta no armário e continuo usando. Esse ciclo pode ocorrer várias e várias vezes, fazendo com que a peça fique cada vez mais esfarrapada.

E era sobre isso que eu divagava hoje, durante o trajeto de bicicleta até a yoga. A cada pedalada, vendo o tecido já puído no joelho, tive que aceitar a evidência: “Essa calça precisa sair do armário”. Sair do armário e entrar na gaveta. Junto com a outra calça de veludo, a vermelha, e algumas camisetas velhas, e blusas de capuz sujas de tinta e até meias furadas ou sem par. Nunca se sabe quando um pé de meia órfão vai ser necessário. Acho que em algum lugar, devo até ter um pé de havaianas solto, para o caso de arrebentar uma tira do meu par atual. Que vergonha, divulgar essas informações.

Mas voltando... Essa calça precisa sair do armário. E ir para a gaveta. Ou talvez eu devesse promover uma mudança radical na minha vida e jogar a calça fora. Agora!

No momento em que escrevo, a calça está largada no chão do quarto. Sim, porque eu tinha uma consulta e não ia aparecer na frente do médico, que não me conhecia ainda, com aquele trapo. Troquei. Coloquei a calça boa. A de verão, mesmo que esteja fazendo frio. Agora pensei na minha tia, que dava uma limpadinha na casa, antes da faxineira chegar. Sempre achei isso engraçado, mas pensando bem, tem certas coisas que a faxineira não tem que fazer. Mas estou desviando. Concentra e deixa pra falar disso outro dia. Talvez.

Chegou a hora de decidir. De levantar, ir até o quarto, pegar aquela calça velha e jogar ela fora! Sem colocar pra lavar novamente, com a intenção de guardar na gaveta. Sem esperar até ela rasgar na bunda. Isso aliás, pode acontecer a qualquer momento. Está quase. Então, esta é a hora da mudança de paradigma.

Mas... e se eu precisar de uma calça preta? Hoje mesmo recebi uma proposta de trabalho em um evento, onde precisaria estar com uma calça preta. Recusei o trabalho. Não preciso mais. Quem leu o boletim de ontem, sabe que assim é a última vida de André M., por enquanto.

Coragem! Chega de enrolar. Vai lá, pega esta calça e joga fora. A-go-ra!

Comentários

Espelho, espelho meu, qual o B.O. que você mais leu?

Boletim de ocorrências #05

Boletim de Ocorrências #30

Boletim de ocorrências #68 : ELA, parte 4 [FIM]

Boletim de ocorrências #04

Boletim de ocorrências #01

Boletim de ocorrências #73 : Enciclopédia, parte 2 [K-S]

Boletim de ocorrências #11

Boletim de Ocorrências #24

Boletim de ocorrências #09

Boletim de ocorrências #65 : ELA, parte 1