Boletim de ocorrências #22

Hoje eu queria falar de uma coisa. Um assunto da moda. Quer dizer, que estava na moda há uns dois anos. Talvez agora já tenha saído de moda e ninguém mais fale disso. Tudo bem. Eu estava fora das redes sociais e não pude dividir com o mundo a minha opinião super relevante sobre esse assunto. Então, as cinco pessoas que estão lendo aqui vão passar por isso e, por favor, me perdoem por estar falando de algo do qual todo mundo já disse tudo no ano passado.

É um pouco como se eu fosse falar de empoderamento. Parece que já passou, né? Não se fala mais. A publicidade se apoderou do empoderamento, muita gente já criticou, outros acharam bonito e agora passou. Ficou banal falar sobre, criticar, enaltecer... ficou banal. Ou não?

Mas o assunto que eu quero falar veio depois do empoderamento. Acho que foi o assunto da moda que veio logo depois. Ou talvez teve a procrastinação, depois do empoderamento, e depois o meu assunto. E com a pandemia, acho que ele ficou ainda mais na moda. Justamente por isso, talvez agora já tenha passado de moda. E se alguém falar disso, todo mundo vai revirar os olhos e pensar “ainda esse assunto?”.

Também se falou muito de produtividade tóxica, que deve ser o oposto complementar da procrastinação. Mas acho que o meu assunto não tem nada a ver com isso. Meu assunto é a resiliência.

A resiliência, tenho a impressão, se tornou a qualidade mais desejada pela humanidade nos últimos tempos. No sentido figurado, seria a capacidade de superar adversidades e de recuperar sua potência, anterior a essas adversidades. Nesse mesmo sentido, imagino que também se trate da capacidade de adaptação que temos face aos obstáculos. Algo como manter a sua natureza intrínseca apesar de tudo, apesar das circunstâncias.

Acho que um exemplo dessa qualidade seria o bambu. Aliás, agora fiquei pensando, tem alguma diferença entre bambu e taquara? Ou taquara é apenas uma forma de dizer bambu no sul do Brasil? Bom, não é sempre que eu venho aqui com um assunto, então não vamos fugir do assunto, né? Segura no bambu, André. Não larga o bambu. Continua aí, no bambu.

Então, o bambu. Parece que se houver um vento forte, o bambu pode entortar. Ele não vai quebrar com a força do vento, ele vai receber esse vento e se deixar entortar. Agora pensei no Tai chi. Não é essa a arte marcial em que a gente acolhe o golpe do outro ao invés de resistir a ele? É isso, o bambu não oferece resistência ao vento. Se o vento empurra, ele enverga. O bambu enverga. E depois, quando não tem mais vento, o bambu volta para sua posição anterior. E todo mundo aplaude o bambu e quer ser que nem o bambu. Enverga, mas não quebra. Entorta e, quando a situação permite, fica de pé novamente.

Só que no sentido literal, a resiliência é a qualidade que um material tem de recuperar a sua forma original após sofrer um choque ou uma deformação. A mesma coisa, vocês vão me dizer. Sim, é a história do bambu. Só que eu acho que isso não deveria se aplicar às pessoas! Pra mim, a tão aclamada resiliência não deveria ser uma qualidade humana.

Desde quando, a gente deveria recuperar a forma original depois de um choque? Não! A gente tem que sair diferente de um choque. Impactados. Afetados. Pelo menos, com uma experiência a mais. Talvez com um aprendizado. Ou uma ruguinha, que seja! Em todo caso, eu penso que a gente ganha mais em acolher a transformação do que em querer voltar ao que era antes do vento. De qualquer forma, acho que essa volta ao estado original é até impossível.

Ufa! Consegui falar do meu assunto. Precisei de muita concentração pra não subir pelo bambu e partir pelo mundo maravilhoso das referências de duplo sentido. Vou parar por aqui, antes que seja tarde demais. Tchau!

Comentários

  1. Adorei e acredito que sempre estará na moda. E no ser humano acredito que "voltamos ao normal " para seguirmos, mas cheio de cicatrizes...talvez no ser humano é parecido com o bambu, mas com algumas adaptações naturais, tipo as cicatrizes..não sei se me fiz compreensível, rsrs...sei que tenho sido muuuuiitoooo resiliente, mas com cicatrizes, algumas profundas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, com certeza... Se recuperar e avançar, mas sem apagar os aprendizados :)

      Excluir

Postar um comentário

Espelho, espelho meu, qual o B.O. que você mais leu?

Boletim de ocorrências #05

Boletim de Ocorrências #30

Boletim de ocorrências #68 : ELA, parte 4 [FIM]

Boletim de ocorrências #04

Boletim de ocorrências #01

Boletim de ocorrências #73 : Enciclopédia, parte 2 [K-S]

Boletim de ocorrências #11

Boletim de Ocorrências #24

Boletim de ocorrências #80

Boletim de ocorrências #09