Boletim de Ocorrências #27
Muito difícil escrever, hoje. Sem tempo. Mas tinha um assunto que eu queria falar. Há dias. Resolvi ir dormir e escrever na manhã seguinte, com mais calma e tranquilidade. Mais descansado.
Só que... Só que agora são cinco da manhã. Cinco da manhã! Da manhã seguinte. Aquela, em que eu deveria estar calmo, tranquilo e descansado. Ou seja, não estou. Outras coisas ocuparam a minha mente durante essa noite, essa madrugada. Os problemas da vida cotidiana. Problemas da vida cotidiana, para adultos que não têm filhos, significa medo de ter mais contas pra pagar. Imprevistos. Dívidas. Obras (na casa, não de arte). Problemas com os vizinhos. Reunião de condomínio. Acionar o seguro do apartamento. Declarar os impostos. Enfim, aquelas coisas que fazem a gente (eu, pelo menos) querer jogar tudo pra cima (como se tudo estivesse nas nossas mãos) e sair correndo gritando. Desaparecer, antes que tudo o que foi jogado pra cima caia de volta. Aquelas coisas que fazem a gente (eu, pelo menos) ter vontade de enterrar a cabeça em um buraco (como não fazem as avestruzes) e só sair do buraco quando... quando... bom, as coisas não vão se resolver sozinhas. Melhor ficar no buraco.
Mas eu tenho a sorte de ter alguém junto comigo, na minha vida de adulto. Alguém que me permite, às vezes, fingir que estou com a cabeça enterrada em um buraco. Alguém que é engajado em encontrar soluções, que se sobrecarrega de problemas e se organiza para tentar resolvê-los. Até o peso ficar quase insuportável. Ou ficar realmente insuportável, em alguns momentos.
Nesses momentos, eu tiro a cabeça do buraco e sou invadido pelo barulho ensurdecedor dos problemas. Como uma avestruz hipotética, assustada com o caos, fico desesperado e quero me enterrar novamente. Mas o buraco já foi soterrado por tudo que estava em volta. Então, não sei como agir.
Em geral, não sei como agir. Na vida, em geral. Tão bom ter alguém pra resolver os seus problemas. Tão bom, poder reclamar que os problemas não foram resolvidos direito, mas você mesmo, não precisar resolver nada. Apenas dar sua opinião inútil.
Pitaco, isso se chama. Em francês, tem uma expressão para esse tipo de coisa, da pessoa que não faz nada e só vem dar sua opinião depois. Aliás, tem mais de uma expressão pra isso. Uma é o inspecteur des travaux finis, que a gente chamaria de fiscal do trabalho dos outros, aquele que chega depois, para dar sua opinião e fazer sua crítica quando todo mundo já discutiu, já propôs, já tentou e já resolveu. A outra é arriver comme les carabiniers. Vem de uma ópera do Offenbach, onde os tais carabineiros, que deveriam chegar para proteger os cidadãos, chegam sempre tarde demais. E, se você for um dos leitores atentos deste blog, já deve conhecer aquele novo ditado: antes nunca do que tarde demais.
Mas o que fazer, então? Se você não se sente capaz de resolver as complicações? Se você se sente impotente face às montanhas de coisas para resolver? Se você nem sabe por onde começar? Se, na sua cabeça, você fica correndo de um lado para o outro, completamente perdido?
Bom, como eu disse, tenho a sorte de ter alguém junto comigo. E esse alguém também já se levantou antes do sol nascer e também está na frente do computador. E ele não está escrevendo um blog. Ele não é o carabineiro atrasado, o fiscal do trabalho dos outros. Ele é os outros.
E eu vou fazer o que posso também. O que sou capaz. Agora, o que sou capaz de fazer é preparar um café (instantâneo, sempre), um croissant, o iogurte com frutas e cereal, o pão na chapa com queijo derretido. Tentar tornar essa manhã um pouco mais acolhedora para mim e para ele.
Bom dia, dia!
Você tem a sorte de poder ir dar uma caminhada as margens do Sena enquanto os problemas "se resolvem por si", rsrs..
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