Boletim de ocorrências #02
Sobrevivi. Fui, voltei e sobrevivi.
Daqui a pouco já tenho que ir para o trabalho. Ontem me deu muita vontade de escrever mais, mas decidi deixar pra hoje. De qualquer forma, me fez bem.
Uma das tulipas se arreganhou diante dos meus olhos. Não despetalou, mas está quase. As outras, continuam enrugadas.
O word salvou o documento de ontem automaticamente, com as primeiras palavras “a página vazia”, gostei. Estava procurando um nome para um blog e gostei disso. Antes, estava pensando em “Oficina do diabo”, porque dizem que cabeça vazia é oficina do diabo e me sinto bem assim nesse momento. Então, a partir de agora, vamos dizer que página vazia é oficina do diabo. Ao trabalho!
Falando em ditados populares, tem outros que gosto de torcer até sair outra coisa. O tradicional “prefiro ser rico e com saúde do que pobre e doente”, mas também “antes nunca do que tarde demais” e, ontem também me veio “nada vale a pena quando a alma é muito pequena”. Sim, tem coisas que não tem salvação.
Estou escrevendo agora e já pensando no que quero escrever amanhã... seria isso um déficit de atenção? Acabei de vir da yoga, mas continuo com dificuldade de focar no presente.
Também posso escrever, um dia, sobre quando achei que ia morrer. Ou quando quase morri, não sei. Ou também posso escrever agora. Mas o despertador acabou de tocar e tenho que sair em meia hora.
Um dia, voltando da unisinos, no ônibus fretado pelos estudantes gramadenses que faziam faculdade à noite, comecei a me sentir mal. Uma dor forte no peito, no coração, no braço esquerdo, que se acentuava com a respiração. Do tipo “está doendo?”, “só quando eu respiro”. Ou seja, enquanto eu estivesse vivo, estava doendo. Consegui chegar em casa, todo mundo dormindo, e fui deitar. Tentar dormir, pois a dor era lancinante. Não aguentei e tive que acordar meus pais, para que me salvassem. Era mais de meia noite e os dois, desesperados, ligaram para o médico, que aceitou me receber no consultório. Chegando lá, já estava me sentindo um pouco melhor, mas ainda com dor. Ele não encontrou nada de específico e receitou um calmante. Não lembro, mas depois devo ter feito outros exames. Durante muitos anos, tive certeza de que tinha tido um infarto leve. Existe infarto leve? O meu existia, tão leve que não podia ser detectado posteriormente, por nenhum exame. Muitos anos depois, tive uma dor parecida, menos forte, e descobri que eram gases. Gases. GASES! Sim. Me senti menos especial, menos único, por não ter tido o meu mini infarto indetectável. Mas melhor assim. Deixa o infarto para um outro momento, de preferência, depois que eu já estiver morto.
Bom, hoje foi 16 de março. De 2022. Quarta. Uma e doze, em Paris. Até amanhã, se eu estiver vivo.

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