Boletim de ocorrências #13
Isso acontece sempre! Começo a escovar os dentes e sinto uma necessidade de fazer outra coisa ao mesmo tempo. Uma necessidade. É isso. Como se fosse algo vital para a sobrevivência da humanidade, para que minha vida não perca o sentido. Preciso aproveitar o tempo de escovar os dentes para fazer algo mais. Ser mais produtivo. E acho que não tem nada a ver com essa busca de produtividade, da nossa época. Ou será que tem?
O problema é que muito pouca coisa se consegue fazer enquanto se escova os dentes. Muito difícil encontrar algo que possa ser feito enquanto se chacoalha uma escova dentro da boca. Ou algo que não precise das duas mãos. Fazer xixi de pé e escovar os dentes. Não recomendo. Lavar a louça e escovar os dentes. Se vestir e escovar os dentes. Enviar uma mensagem pelo celular e escovar os dentes. Já tentei até comer enquanto escovava os dentes. Comer! Juro que essa questão me consome de tal forma que perco a razão. Um dia me surpreendi pensando em aproveitar esse tempo “inútil” para fazer a barba. Ótima ideia. Com uma mão, passar uma navalha no pescoço enquanto escova vigorosamente os dentes, com a outra.
Será que isso rende uma sessão de terapia? Para aqueles dias sem nada pra falar. Coitada da minha psicóloga.
Agora, lendo o outro parágrafo, que começa com “o problema é” me lembrei do meu querido professor de yoga, Sri Venudas, que falava que, para os franceses, tudo sempre tem um problema. “Bom dia, tudo bom?” “Sim, tudo bom, o problema é que...” (preencha com o que quiser: está chovendo, o metrô está em greve, a cidade está muito cheia de turistas, etc.). E é verdade. Às vezes, tento evitar essa palavra, e contornar o problema, mas não sei muito o que fazer. Quando penso em um problema, substituo por “a questão”. É outra perspectiva da mesma coisa, será que vale?
Venudas tinha uma teoria sobre o problema, que gosto muito e que, às vezes, me ajuda a relativizar quando estou em um círculo vicioso de pensamentos. Fora de contexto, pode parecer papo de coach de vida, mas não é. Eram apenas exemplos concretos para ilustrar os princípios da yoga. É mais ou menos aquela história de o que não tem remédio, remediado está. Ele dizia que se o problema não tem solução, se ele realmente não tem solução, não adianta nada ficar falando, pensando, se lamentando ou se preocupando. Simplesmente, ele já está resolvido. Se não tem solução, não é mais um problema. Ponto. E se o problema tem solução, ele também não é mais um problema, pois a gente pode resolver. Então a gente tem que se ocupar com a busca da solução e não com o problema em si.
Agora, por exemplo, meu problema é que já estou há duas horas aqui e ainda tenho faxina pra fazer. Essa casa não vai se limpar sozinha. Tenho que sair daqui a pouco e eu ainda nem escovei os dentes.
Será que dá pra fazer faxina e escovar os dentes ao mesmo tempo?

Kkkk..foco na ação..kkkk...pensa em cada dente enquanto escovar os dentes...kkkkkkkk sábio prof. de yoga...não é problema..mas realmente fica mais emocionante..escovei os dentes e mijei..kkkkkkkk...
ResponderExcluirAinda não cheguei nesta fase de zen, de escovar os dentes em plena consciência... mas é preciso. Para tudo na vida, aliás.
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