Boletim de Ocorrências #29
Então... vamos lá, tentar ser poético. Terminou a quinta semana do blog. Quem diria que eu ia conseguir manter esse ritmo durante cinco semanas! Penso seriamente em diminuir para 2 ou 3 vezes por semana para poder fazer outras coisas, que tomariam mais tempo, com esses textos. Quem sabe uns áudios (não ousaria chamar de podcast). Aceito opiniões.
E esta semana foi uma semana de dia certo. Por “dia certo” quero dizer que o boletim 25 foi dia 25, o 26 dia 26, e assim por diante, até hoje. Se eu continuar escrevendo, isso vai ocorrer outras vezes. Não saberia dizer de quantos em quantos séculos. Não sou Nostradamus.
Epa. Acabo de me dar conta que não, isso nunca mais vai acontecer! Ri alto, mas me senti um idiota, agora. Imagina o boletim 84, caindo no dia 84 do mês de julho. Impossível. A não ser que você seja daqueles que acreditam que o impossível é feito de pequenos possíveis, não é mesmo?
Mas essas simetrias me agradam. Mais do que me agradam, acho que sou meio obcecado por elas. Percebo isso claramente na forma como programo a hora no despertador do telefone (desenvolvi vários sistemas, para criar linhas entre os números ou proporções de tempo), nos códigos que crio para desbloquear o celular (meu preferido é desenhar um M, simetria e assinatura ao mesmo tempo), no meu sistema para estender roupa no varal (criando caminhos para o ar passar entre as peças), na forma de guardar a louça nos armários (bom, isso é uma questão de falta de espaço, mesmo), ou até na forma de usar a louça. Os pratos limpos, recém lavados, não são simplesmente colocados na pilha dos pratos. Eles são guardados embaixo dos que já estão no armário para evitar usar e lavar sempre os mesmos pratos. Sim, eles vão para o fim da fila. Nenhum prato aqui precisa sentir ciúmes, ninguém vai ser deixado de lado. Embora, admito, eu tenha minhas preferências.
Bem, talvez isso ultrapasse um pouco a busca de simetria. Descrevendo assim, este traço simpático da minha personalidade está parecendo mais com um TOC. Talvez, digo apenas talvez, com todas essas manias, há uma pequena chance de que eu seja alguém difícil de conviver. Tudo bem querer fazer desenhos, linhas, letras, com a hora do meu despertador ou para desbloquear o telefone. É algo pessoal, individual. Mas quando isso chega na forma de estender a roupa no varal, de colocar a louça no lava-louças, ou mesmo em como deixar a cortininha da ducha na hora de tomar banho... aí complica. Tentar impor ao outro, ao coletivo, ao que é compartilhado, a minha forma própria de ver e agir sobre o mundo é, no mínimo, prova de intransigência.
Agora estou pensando naquela foto da qual falei no início da semana. Aquela, que não vou publicar. Essa foto me dizia que estou visivelmente menos flexível. Em todo caso, isso foi o que eu consegui ler nas suas sombras. Foi o sinal de alarme que meu cérebro me enviou, me dizendo na terceira pessoa, como se ele não fizesse parte de mim: “Você não acha que poderia relaxar um pouco? Amolecer? Reconhecer, aceitar e amar o mundo do que é diferente de você?”
Sim senhor. Poderia. É essa a minha luta diária. Entre outras. Minha luta de toda a vida, talvez. Acho que em algum momento, muito cedo na minha história, precisei ir ficando duro. Foi uma questão de sobrevivência. Virei um casca grossa, como se diz.
Mas diferente de um casulo, onde você se desenvolve fora do alcance do olhar dos outros e, no momento certo, sai transformado e pronto para sua nova vida, uma casca grossa é algo mais difícil de se livrar. Em geral, dentro da casca grossa você não se desenvolve como deveria, você se debate. Você não fica acolhido, você fica preso.
Então, cérebro, essa é minha luta sim. Ela é cotidiana e ela não é fácil. Mas a notícia boa é que não há casca que resista para sempre.

TOC
ResponderExcluir