Boletim de ocorrências #14

Ah, esta noite, dormi! E o dia está lindo, ensolarado, provavelmente frio na rua, depois de um dia inteiro de neve, ontem. Dia de folga! A casa já está faxinada, as compras da semana já estão feitas, não tem roupa pra estender, nenhum compromisso previamente agendado. Um dia para fazer o que quiser e, fato raro, que coincide com a folga da maioria das outras pessoas. Que luxo! Daí que me inspirei para vir escrever aqui. Aproveitar o silêncio da casa, a vista do céu, a luz desse dia.

Quer dizer, “me inspirei” é maneira de falar pois, na verdade, nada me vem à cabeça. Tudo está tão tranquilamente bem que não há nada a dizer. Onde estão os problemas, as questões, as dúvidas existenciais ou cotidianas? Nem o barulho dos trens, regularmente chegando ou partindo da estação ao lado, não me incomodam nesta manhã. Não há nada a dizer. Será?

Estou aqui, naquela posição dos homens do século 19, com o queixo entre o indicador e o polegar, tipo coçando a barbicha e balançando a cabeça, para mostrar que estou refletindo sobre o que escrever. Procurando cabelo em ovo, como dizem. Seria hoje o dia de escrever uma ficção?

Ah, aí já começa uma tensão, um nervoso. Pode ser que alguma ideia esteja chegando. Ou não. Como chama aquele complexo? Complexo não, síndrome, ao que parece. Do impostor. Ou, mais frequentemente, da impostora, pelo que sei. Mas essa sensação não me ajuda muito a avançar na escrita. Ao contrário.

Quer saber? Hoje, vou ser radical, rebelde, desobedecer a minhas próprias regras e mostrar como sou livre das amarras. Mostrar quem manda aqui. QUEM MANDA AQUI SOU EU! E não é porque EU decidi que vou escrever de segunda à sexta, que EU vou ter que escrever de segunda à sexta! Nada disso! Seu eu não quiser, não escrevo! E não escrevo mesmo! Fico em silêncio. Quem disse que eu não posso ficar em silêncio? Se quiser, eu fico! E sem dificuldade nenhuma. Fico quieto. Tranquilamente. Tomando meu café instantâneo, sentado no sofá, olhando pra cortina e cantarolando. E não tem nada pra eu fazer, mesmo! Posso ficar aqui a manhã inteira, se eu quiser. E ninguém tem nada a ver com isso! Posso e vou ficar aqui até me dar vontade de não ficar mais. E quando me der vontade de não ficar mais, SE EU QUISER, levanto e vou fazer alguma coisa. Vou organizar uns papéis, olhar o que ainda ficou nas caixas, molhar as plantas. Ou não, também. Hoje, não tenho obrigação nenhuma. Não preciso guardar o casaco que joguei na cadeira quando cheguei ontem à noite. Não preciso guardar os sapatos, que tirei às pressas, sem desamarrar. Não preciso guardar a bolsa que está ali. O que mais... O que mais que eu não preciso fazer?

Mas será que tudo isso não é medo de escrever a tal ficção? A síndrome do impostor se disfarçando de liberdade? Paralisia criativa? Ou apenas, não é o momento. Cada coisa tem seu tempo. Isso. Vamos dizer que ainda não é o momento. Como chama aquilo de se enganar, tipo tapar o sol com a peneira... tem uma palavra pra isso. Ser condescendente? Olha eu, de novo, segurando o queixo como os homens do século 19.

Mas quem disse que precisa escrever ficção? Não precisa. Pode escrever um diário. Posso escrever só meus próprios pensamentos, sem precisar inventar o pensamento de outros. Já está difícil organizar a minha própria cabeça, imagina a de um monte de gente. Supondo que eu escreveria algo com muitos personagens, o que é bastante improvável. Um passo de cada vez, um personagem de cada vez. Quem sabe, um homem do século 19, segurando o queixo e refletindo sobre o legado que ele e os outros homens do século 19 vão deixar para a humanidade. Que belo legado de merda.

Mas opa, opa, opa... isso é um assunto pra outro dia. Hoje, ficou decidido que não vou fazer nada.

Comentários

  1. Respostas
    1. Sim, dia de nadas... mas esse "hoje" foi na semana passada. Hoje, mesmo, eu já tinha coisas pra fazer :)

      Excluir
  2. Os franceses já tederam essa solução.."o problema é que...(preencha)"...kkkkkkkk...como um amingo me disse tbm referente a escritas e que está nesse texto.." tudo a seu tempo "... mas segue...vai...tô adorando...sabes que me identifico...precisamos organizar e clarear esse caos..bjão!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, vamos nos inspirar, nos iluminar e clarear as ideias.

      Excluir

Postar um comentário

Espelho, espelho meu, qual o B.O. que você mais leu?

Boletim de ocorrências #05

Boletim de Ocorrências #30

Boletim de ocorrências #68 : ELA, parte 4 [FIM]

Boletim de ocorrências #04

Boletim de ocorrências #01

Boletim de ocorrências #73 : Enciclopédia, parte 2 [K-S]

Boletim de ocorrências #11

Boletim de Ocorrências #24

Boletim de ocorrências #80

Boletim de ocorrências #09