Boletim de ocorrências #26
Anteontem, esse mesmo dia da foto, do sorvete e da cerveja, foi um verdadeiro dia de folga. Também fui ao cinema.
Fui
assistir a um filme sobre uma bailarina que machuca o tornozelo e se confronta
com a decisão de parar ou não de dançar. Ela passa pelo processo de curar suas
feridas, físicas e emocionais, e descobrir como pode continuar se expressando
pela arte.
Não era disso que eu queria falar hoje. Nem gostei tanto assim do filme. Mas pensando bem, está ressoando em mim, essa história. Essa história de bloquear a criatividade, não se permitir ser criativo por causa de uma grande ou de uma pequena lesão. E, aos poucos, descobrir novas formas de colocar os pés no chão, de carregar seu peso e de usar seu corpo e sua mente para traçar novos caminhos. Seus próprios caminhos. Seria isso, a tal resiliência?
Mas, realmente, não era disso que eu queria falar hoje. Não insista!
Hoje, eu queria dizer que quando saí do cinema naquela noite quente de primavera, senti um cheiro familiar. Quero dizer, um perfume. Um perfume forte no ar. Um perfume de flor. Um perfume de Porto Alegre. Aquele cheiro de flores que sentimos quando caminhamos nas noites de verão de Porto Alegre. Alguém mais conhece esse cheiro? Doce. Denso. Quente. Noturno.
Esse cheiro de vagar pelas ruas de Porto Alegre, à noite. Entre o Centro, a Cidade Baixa e o Bom Fim. Ou seja, cheiro de voltar pra casa, ou de sair de casa, no verão ou na primavera de Porto Alegre.
É dama da noite que chama? Uma flor que se abre à noite e espalha seu perfume inebriante. Não sei se o perfume que eu sinto realmente é dessa flor, mas cada vez que senti isso, pensei no conto do Caio Fernando Abreu. Acho que o personagem é uma travesti, falando com um homem. Falando e filosofando, seduzindo e rejeitando. O homem, a sociedade e a si mesma. “Dama da noite, todos me chamam...”.
É estranho ter sentido este cheiro em Paris. Não lembro disso assim, aqui. Mas é uma coincidência. Ou um sinal. Não, sinal não. Não gosto dessa história de sinal. Tenho minhas questões com isso. Acho que é a nossa interpretação dos acontecimentos, não um sinal do universo. Se é sinal, é um sinal que nosso próprio cérebro nos envia, fazendo uma associação e nos dizendo: “Lembra daquilo? Quero que você lembre daquilo”. Isso, claro, supondo que nosso cérebro fale com a gente na terceira pessoa, como se ele não fizesse parte da gente.
Mas, voltando. É uma coincidência que eu tenha sentido esse perfume, justamente no momento em que um dos autores que eu gostaria de trabalhar nas leituras com a Ana é o Caio. E que, justamente, o texto do Caio que eu gostaria de ler é a Dama da noite.
Ou é um sinal do meu cérebro, dizendo que sim, talvez, se eu carregar o meu peso por esse caminho, com esses odores e essas lembranças, talvez, se eu colocar os pés nesse chão, com essas páginas nas mãos, talvez, saia alguma coisa daí. E mesmo, talvez, essa coisa que saia tenha um perfume inebriante.
Esse conto é lindo. Forte. Ah perfumes...lembranças..
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