Boletim de Ocorrências #28
Bom... hoje, talvez, seja o dia de falar do assunto que eu queria já há uns dias. Não é nada de extraordinário. Aliás, infelizmente, é algo bem ordinário. Apenas um pensamento que sempre me vem à cabeça quando atravesso a rua. Olha só, outro dia falei de um cara que atravessou a rua no meio dos carros e hoje vou falar de algo que penso quando atravesso a rua na faixa de segurança.
Claro que na minha cabeça eu já tinha escrito um parágrafo super legal pra introduzir o assunto de forma surpreendente. Mas isso foi há muito tempo atrás, antes de eu tomar café. Agora, depois do café, já não lembro mais. Então vou ir direto ao assunto. Racismo.
É que eu atravesso a rua de maneira meio imprompta. Existe essa palavra? Digamos, imprevisível. Quero dizer que, de repente, como se eu não olhasse antes de atravessar, eu atravesso. Assim, confiando que os carros vão parar porque eu estou atravessando na faixa de segurança e tenho a prioridade.
Na verdade, em geral, eu olho antes de atravessar, sim. Mas olho com aquele olhar periférico, que a gente aprende nas aulas de teatro. Percebo que o carro está se aproximando e calculo mentalmente se ele vem em uma velocidade que poderia parar pra eu atravessar. Daí, se eu tenho a preferência, atravesso mesmo. Para o desespero de quem está andando comigo.
Outras vezes, quando percebo, também perifericamente, que o carro vem rápido demais para parar, eu meio que finjo que vou atravessar. Tipo, manifesto um élan perceptível de que vou atravessar e mostro que só não pude fazer isso porque o motorista não parou antes da faixa de pedestres, como deveria.
Quando sinto que posso atravessar e o carro para de forma natural, porque tem que parar, continuo meu caminho felizinho. Se o carro para no susto, porque eu apareci ali na frente, sou mais afrontoso e olho pro motorista com aquela cara de quem não entende o que está acontecendo. Estou apenas atravessando a rua na faixa de segurança, ué. Está estranhando o quê?
Claro, sei que isso pode dar ruim. Não é bom abusar da sorte, nem da confiança na boa conduta dos outros. Serei mais cauteloso a partir de agora.
Mas daí, alguém pergunta: escuta, o assunto não era racismo? Cadê o racismo?
Calma, vou chegar. Mas talvez o assunto não seja racismo. Talvez seja de privilégio branco que estou falando. O assunto é o mesmo, só que estou falando da minha perspectiva. A perspectiva de alguém que se sente seguro o suficiente para atravessar a rua confiando que o carro vai parar. Alguém cuja presença, na maioria das vezes, vai ser considerada. Ou, simplesmente, vista. Notada.
Porque, é
sistemático, cada vez que faço essa coisa de atravessar “sem olhar”, me
pergunto se uma pessoa negra poderia se permitir o luxo de ser assim, tão
desafiadora dos carros, ou se ela teria mais chances de ser atropelada. Será
que esse carro iria parar se eu fosse negro? Mesmo no meu bairro, que é um bairro com uma grande concentração de população negra,
eu sempre me pergunto isso. Será que essas pessoas se sentem tão seguras
quanto eu para fazer algo tão simples quanto atravessar a rua na faixa de
segurança, quando vem um carro? Acho que a questão não é necessariamente de racismo declarado, quero dizer de
ódio consciente do outro, mas sobretudo uma questão estrutural, de uma violência que deve ser desconstruida. Sei lá. Simples, mas complexo. Tem alguma coisa a ver, isso tudo? Ou
será que estou viajando? Pirando na batatinha? Completamente fora da casinha? Falando besteira?
Alguém aí pode me dar uma luz?
E, pelamor, olhem para os dois lados antes de atravessar a rua, tá?

Nunca havia pensado a respeito, mas faz sentido..é de se questionar, porém só uma pessoa negra poderá te dar esse feedback.
ResponderExcluir