Boletim de ocorrências #88
Gente, eu estou cansado!
Parece que a vida não quer me dar férias. Logo eu, que só queria ficar tranquilo. É uma das minhas únicas ambições.
Faz certo tempo que uma angústia súbita, intensa e debilitante toma conta de mim. Aquele tipo que a única vontade é de parar, sentar-se no chão, chorar e não precisar levantar nunca mais. Ou então sair gritando, arrancando os cabelos, as roupas, correndo até o fim do mundo. Dar uma de louco, como se diz. Qualquer estratégia é válida para não enfrentar algumas realidades.
Isso deve ser uma tendência de personalidade minha, ou uma construção lenta e bem sedimentada ao longo dos anos. Por fora, todo mundo me acha calmo. Por dentro, sempre fui uma pessoa nervosa e tensa. E isso cansa. Mas agora tem algo mais. Acho que está relacionado com a vida de adulto, com a morte do meu pai, mais precisamente com o fato de não poder contar com mais ninguém para resolver os meus problemas.
Não estou dizendo que meus pais resolviam todos os meus problemas. Os meus problemas, meus meeeesmo – pelo menos os que fui construindo nestes últimos 21 anos, desde que comecei minha vida de adulto imigrante – esses eu até conseguia... se não resolver, pelo menos ir levando. Do meu jeito. Meus boletos, minhas regras. Só que também tenho os problemas que eu herdei, aqueles que ironicamente, e para tentar amenizar um pouco o stress, chamo de “problemas de rico” e para os quais não tenho ninguém que realmente possa resolvê-los no meu lugar. Não posso mais fazer como se não tivesse nada a ver com isso.
Estou completamente sozinho? Não. Algumas pessoas até querem ajudar. E ajudam. Mas não é possível tomar para si as questões do outro. Chacun sa merde, como se diz em francês. Por mais que certas coisas possam ser transferidas, uma parte delas vai continuar presa a mim como aquelas bolas de ferro nos pés dos prisioneiros. Bem... não é necessário ler a obra completa do Freud para entender como tenho encarado a situação.
Mas que tanto problema que me deixa nesse estado? Ah, isso só posso contar em detalhes se você realmente leu a obra completa do Freud. E ainda te pago para me ouvir. Mas resumindo, em geral, tratava-se de gastos inesperados. Tudo bem, até aqui não era nada de grave. Atenção! Eu disse “até aqui”. Outros detalhes, que vão para além do finaceiro, eu só falo na presença dos meus advogados. Problemas de rico, como eu disse.
Mas por que eu comecei a falar disso tudo, mesmo? O tema da semana não era esse! Tudo bem, estou me sentindo cansado sim, mas não tinha nada a ver! Pelo menos, não diretamente. O tema era: eu me transformei nessa pessoa cujo primeiro movimento do dia é esticar o braço para pegar o telefone. Mais do que isso, cujo último movimento do dia é largar o telefone. E se não tomar cuidado, a maioria dos movimentos do dia vai ser pegar e largar o telefone. Depois, o ser humano não sabe por que está estafado. Passa o dia inteiro ouvindo o noticioso, como dizia minha avó (já contei isso por aqui), ou assistindo aos vídeos que o algoritmo escolheu especialmente para você, e acha que não vai ficar com ansiedade?
Olha... o mundo já não colabora para a gente ter motivação, bom humor, empatia, ou sentimentos positivos em geral. Se aos problemas do mundo e aos meus problemas pessoais eu ainda caio no buraco sem fundo do feed e me deixo levar pelo vértice das redes sociais, a coisa fica realmente insustentável.
Não sei, mas tenho a impressão que não estou sozinho nesse barco. Acho que tem mais gente por aí nessa ansiedade. Então, hoje, vou militar pela alfabetização. Proponho a quem quiser, que a gente tente alfabetizar os pensamentos, os sentimentos e os comportamentos. Organizar tudo para entender, mudar, acolher melhor quem a gente é, inclusive com os grilhões que cada um carrega. Ou como me disse uma bruxa, aqui na França: reconhecer, aceitar e amar tudo isso. Eu já falei um pouco disso por aqui, mas repito: essa poderia ser nossa poção mágica para espantar a angústia e cultivar bons hábitos.
Combinado?

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