Boletim de Ocorrências #86

Estou na minha pausa. Fechado em uma cabine, dentro do trem.

Uma cabine reservada aos passageiros “elite”, aqueles que são mais do que primeira classe, mais do que classe executiva. Aqueles que podem pedir para reservar uma cabine isolada dos outros ricos mortais.

Tudo bem, tem gente que precisa trabalhar em paz durante a viagem. Ou fazer uma reunião. Ou acertar os detalhes de um contrato milionário. Quem nunca?

Mas o que eu queria falar hoje era outra coisa. Nada a ver com trem, com elite, com classe. Ou então, com um outro tipo de classe. Queria falar de como acho feio quando alguém está fazendo alguma coisa enquanto caminha.

Por exemplo, comer enquanto caminha. Falta de classe. Fumar enquanto caminha. Também.

Bom, na verdade, agora só me vêm estes dois exemplos. Mas acho essas coisas feias. Talvez porque a pessoa não está cem porcento na sua ação. Está dividida entre duas coisas que mereceriam a sua atenção de forma mais completa. Parar para comer, saboreando, ao invés de mastigar no ritmo dos passos (diz aquele que come de pé e engole a comida inteira). Parar e fumar, para tentar dar um pouco de charme para esta ação. Para parecer que está meditando enquanto fuma. Caminha depois. Se está com pressa, não coma, não fume. Apenas caminhe.

Mas agora já pensei em outras coisas que até ficam bonitas de fazer caminhando. Tomar sorvete, por exemplo, é possível. Não que seja especialmente bonito, mas também não é feio. Se a caminhada for tranquila, claro.

Nessa de caminhada tranquila, meio caminhando ao léu, também dá pra conversar... sim, isso é bonito também. Uma conversa com um amigo, enquanto caminha em um parque, por exemplo. Bem, minha teoria acaba de cair por terra. Tá liberado, então, pode caminhar fazendo o que quiser... desde que caminhe lentamente!

A não ser que tomar sorvete e conversar sejam as exceções que confirmam a regra que não permite caminhar fazendo alguma coisa. É, pode ser isso. O bom de ter meu próprio blog, é que eu posso fazer o malabarismo intelectual que eu quiser para ter razão. E sempre funciona.

Opa, opa, opa! Peraí!

Acabo de ver que a expressão “ao léu”, que usei mais pra cima, quer dizer algo completamente diferente do que eu imaginava. Pensei que significava andar sem destino, vagar. Como flanar, caminhar sem pressa, para se distrair. Só que ao léu quer dizer despido!

A palavra léu, sozinha, quer dizer sem preocupações. Mas ao léu induz a erro. Eu achava que ia caminhar despreocupadamente e acabei saindo pelado. Complicado, isso. Até porque, não sou de ficar sem roupa entre amigos. Tem gente que gosta.

foto: Micheline Torres 

Eu não conseguiria sair para uma caminhada, com aquela brisa gostosa, tomando um sorvete e conversando com um amigo, pelado. Acho que preferiria praticar essa onda naturista entre desconhecidos. E talvez, não fosse para conversar e tomar um sorvete. Mas isso já é outro assunto.

Se quiser caminhar ao léu, sem estar completamente pelado, tem que especificar melhor. Por exemplo: caminhar com a cabeça ao léu (sem chapéu), com os pés ao léu (descalço) e por aí vai. Cada um coloca o léu onde quiser.

Mas então, eu poderia estar escrevendo este boletim fechado em uma cabine de elite, dentro do trem, ao léu.

Será que estou?

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