Boletim de Ocorrências #53
Então, estou de férias.
E como é que eu comecei as férias? Cheio de energia, feliz e saltitante? Não. Com dor de garganta, cansado e com a pálpebra inflamada.
Mas não é isso que vai me impedir de relaxar e aproveitar. De qualquer forma, não é disso que eu quero falar hoje.
Na verdade, não sei do que quero falar hoje. Dei uma olhada em volta, pra ver se alguma coisa me inspira um pensamento aleatório, mas está tudo parado aqui em casa. Como quando a gente faz uma pausa em um filme e a imagem fica congelada.
Também não sei o que eu estava esperando. Que tipo de movimento? Uma porta de armário que se fecha sozinha, o varal portátil que começa a rodopiar pela sala, o lustre que balança sem razão? Não sei.
Mas essa imagem dos objetos que ganham vida, me fez pensar em contos de fadas e histórias infantis. Acho que é na Bela e a fera que o bule, a taça, o candelabro, o relógio de pêndulo e outros objetos se humanizam e viram personagens. Também tem Alice no país das maravilhas, com bules e taças. A branca de neve tem pássaros que vêm ajudar a arrumar a casa.
Que delícia seria se os objetos viessem conversar com a gente, dar conselhos, ajudar nas tarefas diárias. O sofá, que me cutuca dizendo para eu ir sentar na cadeira do escritório quando escrevo, senão vou ficar com dor nas costas. As roupas saindo da máquina de lavar em fila indiana, cantando uma marchinha e me agradecendo pelo banho à medida que vão se pendurar sozinhas, do jeito que eu gosto, com espaços para o ar circular entre elas. A tábua de passar roupa, perguntando se eu dormi bem enquanto passo minha camisa e me dizendo para fazer um pouco de alongamento antes de sair para o trabalho.
Mas vai saber se iam ajudar mesmo. Talvez tivessem uma personalidade horrível, mau-caráter ou, simplesmente, não se importassem com a gente. O sofá, que me empurra dizendo que não aguenta mais me ver ali jogado, sem fazer nada como um inútil. As roupas saindo da máquina numa correria, gritando e se espalhado pela casa toda, me xingando por tê-las deixado a noite inteira fechadas no lava-roupas. A tábua de passar, reclamando que fica guardada de pé atrás da porta e dizendo que, bem feito, eu mereço passar o dia inteiro trabalhando de pé também.
É... melhor deixar os objetos inanimados ganharem vida apenas na ficção.
E pela minha experiência de pássaros que entram pela janela, só deu trabalho. Foi divertido, mas cagou em cada canto que pousou e me fez perder uma tarde inteira tentando encontrar seu dono. Em vão.
Tudo isso também me fez lembrar do espetáculo Assassino, baseado no conto do Ray Bradbury. Um dia desses vou falar mais dessa peça. Ali, o homem se revolta contra os objetos, mas os objetos também se revoltam contra o homem. São tão úteis e intuitivos que se tornam intolerantes e hostis ao que é espontâneo. O tapete exige limpeza absoluta para te deixar entrar em casa. O forno controla a tua alimentação. O colchão te obriga a otimizar as horas de sono, para aprender uma nova língua enquanto dorme.
E todo mundo considera isso normal. Normal e benéfico. O relógio conectado, contando seus passos e observando seus percursos. O aplicativo para te lembrar de tomar água. O despertador que vigia seus ciclos do sono. A geladeira que não te deixa abrir a porta duas vezes seguidas. E por aí vai.
Tudo normal. Absolutamente normal.

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