Boletim de ocorrências #58
Pensando no que escrever esta semana, me perguntei se escreveria sobre herança. É algo que vou abordar em breve. Mais tarde.
Daí que, olhando pela janela do banheiro da casa da minha adolescência, vi uma casinha de madeira no terreno do vizinho. Uma casinha para crianças, com escorregador e esse tipo de coisas. Essa casinha fica no exato lugar onde o vizinho tinha um leão. Naquele espaço, havia uma espécie de iglu de pedra, onde o leão podia entrar, e uma calçada cercada, onde ele passava os dias. Não sei se já falei desse leão aqui, mas um dia eu falo. Sobretudo da morte do leão.
Agora falei na morte do leão e pensei que poderia ter dito a agonia do leão, pois ele agonizou um dia inteiro antes de morrer. Foi um dia tenso, aqui em casa. Acompanhamos esse sofrimento minuto por minuto. Voluntariamente, mas poderia ter sido involuntariamente, pois a única maneira de não ouvir o leão seria passar o dia longe de casa. E falando em agonia do leão, pensei no meu pai. Não apenas porque estou convencido de que ele está diretamente ligado à agonia do leão, mas também porque lembrei disso aqui.
Mas vamos falar de coisa boa? Se não quis escrever sobre herança, também não quero falar de agonia.
O que essa casinha de madeira me lembrou também, foi a casa na árvore que meu pai fez para o meu irmão. Acho que era o sonho de consumo de qualquer criança. Chamo de casa, mas não tinha paredes. Era como uma grande varanda, rodeada por uma cerquinha, há uns três ou quatro metros de altura do chão.
Ali, a gente brincava, eu lia e, em uma das visitas do tio Emerson, que vinha de São Paulo com este objeto mágico (e raro nos anos oitenta) que era uma câmera de vídeo, essa casinha virou cenário de um filme caseiro. Foi a morada do duende Pum em uma floresta encantada, onde as crianças buscavam um tesouro deixado pelo avô.
Mas o que eu queria falar dessa casa na árvore? Nada de específico. Tenho vagas lembranças do meu pai fazendo essa construção. Que se misturam com lembranças dele fazendo aquelas caixas para criar abelhas, ou uma incubadeira de ovos, ou serigrafia, ou velas, ou criando tucano, guaxinim e mainá.
Começo a entender melhor de onde vem minha vontade de criar algo que seja “manual” ou “artesanal” ou “artístico”. Fazer algo para além da vida burocrática e institucional. Para além de ir trabalhar e descansar para poder retomar o trabalho no dia seguinte. Para além de correr para pagar as contas e resolver os problemas. Aparentemente é isso a vida, se a gente não incluir intencionalmente algo a mais. Amar, criar, contemplar.
Bom, essa vontade de fazer algo a mais não deve vir só do meu pai. Vem da humanidade, sem dúvida. Da condição humana. Mas tem gente que encontra em outros lugares, não esses do manual, artesanal ou artístico, o espaço de respirar e ser feliz. Quem sabe, até no trabalho! Tem louco pra tudo...
Minha opinião sobre trabalho, já dei em diversos textos aqui. Agora, estou de férias, me preparando para ver amigos, tomar sol, comer comidas diferentes, encher os olhos de beleza e descansar... para poder retomar o trabalho. Putz, não consigo mudar de assunto!
Quer dizer, pra quem começou falando de herança, agonia do leão e casa na árvore, até que dispersei bastante, já. Se isso não é mudar de assunto... embora memórias também sejam heranças. Não necessariamente ricas, mas talvez as mais valiosas. Estou traduzindo um texto que fala da importância da memória compartilhada, mas isso já é outro assunto, né?
Até a semana que vem.

Sonho até hoje com uma casinha na árvore... Beijo !
ResponderExcluirRealmente, é uma delícia... Beijo :)
ExcluirTudo muito bem interligado, só quem viveu e sabe. Casinha, herança, leão, filmes do tio Emerson rsrsrs
ResponderExcluirE, entretempos, as visitas dos primos de Salvador... um evento, a cada vez ❤️
ExcluirUma casinha pra sonhar
ResponderExcluirSim, um espaço suspenso, 3 metros acima da realidade :)
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