Boletim de Ocorrências #66 : ELA, parte 2
Voltei a escrever.
Esse diário me fez bem, mas também foi um fardo. Uma ocupação intensa que me ajudava a não me confrontar, a não ficar diante desse vazio. Ou a olhar para dentro dele, talvez. Voltei.
O que será que eu quis dizer, ontem, ao me comparar com a minha mãe? Ao comparar meus dias com os dias vazios dela? Meu medo? Minha impotência? O medo da minha impotência diante de um destino inexoravelmente vazio?
Já falei disso com a minha terapeuta. Ela tentou me fazer entender que minha história não é a história da minha mãe. Minha vida não é a vida da minha mãe. Meu destino não é o destino da minha mãe. Mas para mim, tudo isso é “não necessariamente”. Não necessariamente, mas talvez sim. Talvez seja.
Me vejo com frequência espelhando gestos, emoções, ações e reações que eu atribuo a ela. Ou então, talvez, eu esteja apenas projetando nela os meus medos. Talvez os dias da minha mãe não fossem vazios. Pode ser que ela não tivesse essa sensação de uma vida oca depois do infarto. Ficar em casa pode significar muitas coisas. Tomar banho de sol. Ouvir música. Cuidar das plantas. Conversar com os vizinhos. Bordar. Pintar. Ler. Escrever um diário. Ou talvez ela mantivesse uma de suas ocupações de quando eu era criança: mudar os móveis de lugar.
Dias de faxina, lá em casa, às vezes significavam dias de grandes transformações. Em uma tarde a sala, os quartos, todo o ambiente da minha infância, podiam mudar completamente de aspecto. Armários pesados, cômodas, camas, sofás, tapetes “persas”, tudo passava de um lado para o outro, trazendo uma impressão de casa nova.
Não lembro se eu gostava ou não dessas metamorfoses, mas hoje, na minha casa, cada coisa tem seu lugar e me incomoda muito quando algo não fica no seu lugar atribuído. Não que a casa esteja sempre organizada, longe disso. Mas me parece inconcebível mudar o sofá de lugar, as poltronas ou mesmo os objetos decorativos. Tudo está onde deveria estar e ali deve ficar. Me seguro nisso como um náufrago em uma tábua de salvação. Me asseguro. E passeio regularmente pela minha casa como em um museu, constatando que não há mais espaço para novos objetos. Um novo objeto é uma angústia. Um peso para colocar no meu vazio.
Estranhamente, este vazio, da casa, das paredes, é diferente do vazio oco dos dias. É um vazio agradável. Um espaço de descanso. Onde eu posso entrar e me espalhar.
Mas estou fugindo do assunto. É uma das minhas técnicas mais regulares de negação. Ir seguindo os pensamentos, deixá-los me levarem para outro lugar e não voltar mais. Mas hoje, esta semana, queria fazer o exercício contrário.
Voltar. Voltar ao assunto. Fazer voltas. Espirais.
Então, não vim falar da decoração da minha casa, nem dos dias de faxina da minha infância, nem de tudo o que minha mãe poderia fazer para preencher seus dias depois do infarto.
Sim, ela podia fazer muita coisa nesses dias. Bordar, pintar, plantar, caminhar. Mas quem eu estou querendo enganar? Eu sei que ela preenchia esse vazio com muito desespero. E muita desesperança.
Eu sei.
Eu sei, porque ela me disse.
[continua]

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