Boletim de ocorrências #05
Entre voos
e trens de alta velocidade, o fim de semana foi movimentado. Talvez seja
a chegada da primavera. A chegada da primavera ou a volta da primavera?
Quando eu era criança, adorava um filme que passava todos os anos na sessão da tarde. Duas crianças que partiam em busca de um pássaro azul em um bosque meio mágico e depois tinham que reencontrar o caminho de volta pra casa. Algo assim. Um filme meio sombrio, pelo que lembro. Expressionista, talvez.
E ontem, apareceu no telhado, um pássaro coloridíssimo, com a cabeça azul. Era domesticado, provavelmente de um prédio vizinho e estava perdido. Fiquei com medo por ele, abri uma janela e ele veio pulando até mim. Entrou, subiu pelo meu braço e ficou bicando minha cabeça. Todo um evento. No fim, abrimos a janela e torcemos pra ele encontrar o caminho de casa.
Como é gostoso ter um animal de companhia! Não lembrava mais. Os gestos de amor incondicional ou mesmo de indiferença amorosa. Até as bicadas na cabeça me pareceram acolhedoras e deliciosas. Será que estou carente? Me lembrei do dia em que peguei carona com os pais da Lari e, quando chegamos na casa deles, os peixinhos estavam mortos no aquário da cozinha. Um problema com a troca da água, acho. A mãe dela ficou arrasada. Mesmo. Difícil pra mim imaginar um animal mais silencioso, menos interativo do que um peixe. Mas o peixe interagia, sim, e comunicava, e compartilhava amor com ela.
Agora estou no trem. No trabalho. Trabalho em um trem. Entre a ida e a volta pra casa. Vontade de comer o iogurte que está na mochila, mas não tenho colher. Ah, tenho sim. Iogurte com geleia. Que horror essas colheres descartáveis de madeira. Chegam a machucar a boca. Mas parece que são mais ecológicas. A pessoa que inventou isso está de parabéns. Nada melhor do que lamber um pedaço de lenha, pra gente desistir de consumir produtos descartáveis.
Minha mãe fazia iogurte em casa. Eu comia aquele iogurte com tanto açúcar mascavo que ele ficava marrom. Eram pedras de açúcar mascavo rodeadas de iogurte. Mas não tinha só isso, que eu gostava. Também adorava o lanchinho que a gente fazia de vez em quando, bem light, com uma linguiça passada na chapa, coberta de queijo colonial derretido, tudo em um cacetinho. Cacetinho, no meu país, é o que se chama pão francês no resto do Brasil. Aqui na França, se chama petit pain, pãozinho. Mas muito raro ter um pãozinho pra comprar no supermercado ou na padaria. Mais comum comprar uma baguette ou meia baguette.
Outra coisa eram as sessões de filmes de faroeste com bacias de pipoca. Me pareciam ser bacias de plástico imensas. Tipo de lavar roupa. Pipoca salgada ou pipoca doce, caramelizada ou com calda de chocolate. Quantos dentes eu quebrei na minha vida, comendo pipoca com a minha mãe! Agora, às vezes, eu faço pipoca em casa, sem óleo, sem nada. Apenas o milho na panela quente. Um pouco de sal ou de açúcar. Não é a mesma coisa.
Essa sessão nostalgia não estava prevista pra hoje. Mas já devia estar latente. Quantas vezes será que falei em voltar pra casa, nesse texto?
Cruzes! De repente, as luzes apagaram, as portas automáticas fecharam e eu fiquei preso aqui, achando que o trem ia voltar pra garagem comigo dentro. Relendo essa frase, me pergunto se estaria escondendo metáforas: como se, escrevendo essas historinhas, eu ficasse cativo, em um espaço meio obscuro, de retorno às origens. Mas não. A luz voltou, as portas abriram e eu pude sair desse trem. Talvez a metáfora seja outra.
Hoje foi domingo. 20 de março de 2022. Duas e dois em Paris, mas apenas uma e dois aqui em Londres. Amanhã é primavera.
Cacetinho quentinho de manhã com manteiga derretendo é outra saudade que aparece seguido por aqui, quase equivalente à da massa de pastel...
ResponderExcluirVoltar pra casa... te acompanhar hoje tá tendo efeito balsâmico... saber que dá pra voltar da volta pra casa também...
ABRAÇO
Olá leitora!
ExcluirAcho que tu entendeste a metáfora melhor do que eu!
Obrigado por vir e voltar aqui.
Abraço.
Oi André que boa surpresa, que bom te ler ! Eu também assistia o filme do passar o azul e ele me marcou, outro dia andei procurando pelo seu título deu vontade de ver de novo...Que alegria poder compartilhar a mesma lembrança com você obrigada beijão saudoso.
ResponderExcluirOi Astrid, que legal, você por aqui!
ExcluirSemana que vem falo de outros filmes da minha infância. Quem sabe também são lembranças comuns :)
Outro dia, olhando umas fotos, revi nossa performance no Centro Pompidou. Saudade.
Beijo.
Essa crônica está excelente, cheia de metáforas, interpretações, saudades sem querer voltar.tambem tenho isso.
ResponderExcluirAlma de andarilha, que tu tem...
Excluirbeijo
Adorava açúcar mascavo com iogurte e aquelas bolinhas q desmanchavam na boca. Lembro dos iogurtes da dada. Muito nostálgico
ResponderExcluirSim, é bem essa, a minha lembrança do açúcar no iogurte. Mmmm... Mas o tradicional café dos primis, também deixa um gostinho de saudade :)
Excluir