Boletim de ocorrências #04

Hoje recebi a Ana para um café, aqui em casa. Eu, que nem sei fazer café. Comprei o café, biscoitinhos, tirei a cafeteira do armário. Ela chegou com um ovo de páscoa, me explicou como fazer café, quanto colocar e ficou bom.

A conversa também foi boa. Sempre é. Acho que nos identificamos nos perrengues. Em alguns, pelo menos. E no fim das contas, também foi produtivo. Os desejos dela de longa data conseguiram encontrar os meus desejos nascentes, latentes, e um projeto começa a tomar forma.

As tulipas. Joguei fora. Coloquei outras. Me dizia “enquanto há água, há esperança”, mas não. Meio que ficaram feias e não tem espaço para o feio na nossa sociedade. Que horror, dizer isso! Vamos dizer de outra forma: nossa sociedade já tem feiura demais, para a gente manter uma coisa feia em um lugar de destaque, no meio da sala. Melhor assim. E tem uma metáfora aí. Acho.


Mandei os três primeiros textos para os amingos (o teclado quis escrever apenas amigos, mas esses são mais que amigos, são amingos com n). Agora, fico olhando o telefone a cada trinta segundos para ver se já visualizaram a mensagem, se vão fazer algum comentário. Mas que comentário podem fazer? Certamente apenas coisas positivas e acolhedoras. Fiquei pensando em como eles não vão poder dizer que está uma merda, que não gostaram. Tipo, eles não têm muita escolha, só podem dizer “isso aí, continue assim, legal, joinha”. Ou ficar em silêncio. A Fer já viu há 20 minutos. A Lari há 10. Um silêncio constrangedor. E, enquanto isso, talvez eles tenham criado um outro grupo no whatsapp para discutir “o que dizer para o André”: “gente, como explicar pra ele?”, “quem vai falar?”, “eu não posso, sou muito direta, fala você!”, “não, espera o Fabi ler também, quem sabe ele diz”, “poxa, agora não tem como des-ler, vamos ter que falar alguma coisa”, e por aí vai.

25 minutos.

Noooossa! Que baixa autoestima! Como é que eu vou fazer agora, pra aceitar comentários positivos e acolhedores, desse jeito? Ia dizer que estou brincando, sei que não está tão ruim assim, mas acho que me deixei influenciar pelo meu próprio senso de derrisão.

30 minutos e nada. Já estou com os joelhos tremendo, vontade de vomitar. Mas acho que é porque comi muito chocolate. Depois que a Ana saiu, joguei mais uns quatro pedaços de brownie pra dentro. Queria comer mais um, mas não consegui.

O Jérôme reinstalou a cortina ontem, enquanto eu estava no trabalho. Porque eu disse que queria a cortina instalada quando a Ana viesse ver o apartamento reformado. Querido. Eu quebrei o trilho da cortina, que o Jérôme tinha escolhido e eu não gostava, e comprei outro, mais vagabundinho, mas que eu prefiro e que ele não gosta. Quebrei sem querer, é bom frisar. Espero não precisar abrir e fechar essa cortinha muitas vezes.

45 minutos. Bom, esse silêncio já disse tudo. Antes nunca do que tarde demais. Será que eu deveria ter avisado que estava ansioso por comentários? Ou talvez deveria ter perguntado quando poderiam ler e me dar um retorno? Dar um retorno, que vocabulário de firma! “Aguardamos seu retorno sobre este relatório, com a síntese da proposta e novas sugestões. Cordialmente, equipe da contabilidade.”

O mito do eterno retorno. Aquel... opa! Uma mensagem da Lari. Até amanhã. Talvez.

Paris, 18 de março de 2022. Sexta. Cinco e trinta e seis. Hoje tem sol.

Comentários

  1. 28.03.22... esperando o texto desta manhã... já? sem pressão, claro...

    aterrissou e ficou reverberando aqui: "nossa sociedade já tem feiura demais, para a gente manter uma coisa feia em um lugar de destaque, no meio da sala. "

    Adorei a foto das novas tulipas. Luminosas. Tulipas Luminosas... é quase um nome de obra, não?

    Te ler tem me dado vontade de dançar. Tenho dançado no pensamento contigo, já... E como pensamento é movimento, já é uma dança nascente, acho.

    ABRAÇO.

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    1. Ah, uma leitora!
      Sim, os texto novos saem às 10h da manhã, de segunda à sexta :)
      Quando comecei este blog, encontrei "nosso terceiro espaço", onde tu nos escrevia coisas lindas. Como tulipas luminosas!
      Vamos continuar dançando, assim, à distância, em pensamento, até o proximo encontro.
      Abraço <3

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  2. Texto gostoso como chocolate! Adoro a Ana!

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  3. Quero dançar com vocês! Vamos?

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    1. Você já está dançando com a gente, AnAm... Aqui estamos :)

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  4. Estou saboreando as tuas crônicas e confidências. Não me manifestei antes por alguma incompetência informática em me logar no blog rsrsr. Louca por um café com bolo e conferir essa cortina nova

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    1. Acho que a incompetência informática é de família, pois até eu estou com dificuldade pra responder os comentários!
      Que bom que tu apareceu por aqui, Rose :)
      beijo

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  5. Fiquei com inveja da Ana! Tbm queria comprar versar contigo e nem precisava os biscoitos ❤️

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    1. Sim... espero que a gente tenha esse encontro em breve. Em Paris :)

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