Boletim de ocorrências #07
Agora sim.
Será que consigo aprofundar algum tema? Fazendo digressões, como é meu hábito, mas conseguindo manter um fio na conversa? Se depender da memória, vai ser difícil. Hoje, acordei com uma ideia na cabeça. Um título inspirador para uma postagem. Desta vez, fui esperto e pensei “vou anotar”. Porque, quase sempre, me digo que certas ideias são tão marcantes que serão inesquecíveis, mas no momento de retomar essas ideias, já esqueci. Então, “vou anotar” e enquanto esticava o braço para pegar o celular e anotar, pensei que... o quê, mesmo? Meu deus, estou parecendo o tapa na pantera! Ah sim, pensei que com esse título inspirador, seria melhor eu não escrever um diário, mas criar uma ficção. Será que eu seria capaz de escrever uma ficção de verdade? Com começo, meio e fim. Um personagem? Algo que não fossem apenas meus pensamentos aleatórios? Bom, nesta breve divagação enquanto esticava o braço pra pegar o celular, neste desvio rápido do caminho, esqueci o título inspirador.
A máquina de lavar continuou sem querer centrifugar. Duas vezes mais, esta manhã, tive que abrir, deixar cair água pelo chão, esvaziar o resto com um copinho. Toda uma função. Tentei várias vezes, bati nela, rezei, pedi... nada. De repente, à tarde, voltou a funcionar. Vai saber.
O Jérôme chegou mais cedo do trabalho e parei de escrever. Fiz um café, (instantâneo, claro), contei brevemente minhas aventuras com a máquina de lavar e decidi fazer um bolo. Quando coloquei o bolo no forno, lembrei do café. Tomando o café, que já estava frio, lembrei que estava escrevendo um texto. Voltei pra cá e... onde é que eu estava mesmo?
Sim, queria dizer que passei a manhã quebrando a cabeça para lembrar do título inspirador. Me vestindo e quebrando a cabeça, esvaziando a máquina com um copinho e quebrando a cabeça, na aula de pilates e quebrando a cabeça, ouvindo podcast e quebrando a cabeça. Eram duas palavras. Uma delas com a letra A. Isso já restringe bastante o leque de possibilidades, mas não o suficiente. Desisti. Outros títulos inspiradores virão. Enfim, “desisti” é modo de dizer, pra não passar vergonha. Porque, na verdade, apenas desisti de fazer isso o tempo todo. Mas tentei lembrar rapidinho, várias vezes por dia, pra ver se enganava meu esquecimento, pegando ele de surpresa. Como se o esquecimento fosse algo concreto, alguém que está em uma peça da casa, escondendo as coisas que quero lembrar. E dando uma espiada pela fechadura, ou abrindo a porta de repente, eu poderia ver onde ele colocou a memória perdida. Talvez seja assim mesmo. As lembranças não se volatilizam, apenas se depositam em um lugar inacessível ou de difícil acesso. Como o labirinto do Minotauro, precisaria de um fio para encontrar o caminho.
Falando em fio, foi por causa de um fio que desisti do doutorado. A cada encontro, meu orientador me pedia para encontrar o fil rouge, um maldito fio condutor que ligaria os temas da tese. Tese que, para ser sincero, eu já não estava mais querendo fazer há muito tempo. O projeto inicial foi mudando tanto e se distanciando tanto do que eu queria pesquisar no início, que já não deu mais vontade de continuar. Ou seja, não terminei o doutorado por um fio.
Hoje foi 23 de março. 2022. Quarta. 16h51. Não, o bolo não queimou.

Bom dia autor!
ResponderExcluirAdorei experimentar o ponto de vista da máquina de lavar na foto...
Lembrei do "fio vermelho" do Instruções para abrir o corpo em caso de emergência (ou talvez do Instruções[Desdobramentos?) de Michel, Xanda e Tati...
Reverberações...
ABRAÇO
Hahaha... sim, cara leitora, um dia, eu olho pra ela, outro dia, ela olha pra mim. E assim vai a vida, seguindo seu fio entre o homem e a máquina.
ExcluirTinha fio vermelho no instruções... queria muito ter visto ao vivo.
Reverberações ou centrifugações?
Abraço.