Boletim de ocorrências #08
Há uns dias atrás, fiz uma conta no instagram. É um pleonasmo dizer há dias atrás? Porque não poderia ser há dias à frente, né. Então, há uns dias, fiz uma conta no instagram. Hoje, pensei em publicar uma foto. Que dificuldade! Faz quatro anos que saí das redes sociais e agora me sinto como alguém que chegou diretamente da idade da pedra. Tenho a impressão de receber bofetadas de imagens. Apesar de que parece ser algo tão simples para todo mundo. Bom... pensei em publicar uma foto. Uma foto de mim, quando criança, caminhando em direção à câmera. Gosto, porque parece que sou alguém decidido, com objetivos claros e energia para alcançá-los. Também porque estou indo em direção a quem está olhando pra foto. Como se estivesse prestes a sair do enquadramento e entrar no “mundo real” do presente. Entrar e agir. Pensei em publicar a foto, coloquei uma legenda simpática, apresentando brevemente o blog. Publiquei. Não. Não publiquei. Aparentemente, minha foto caminhando decidido não condiz com as normas de conteúdo da plataforma e foi bloqueada. O mundo não está preparado para uma criança com tanta força de vontade, que quer transbordar da foto. Não sei, vou tentar novamente, quando estiver em casa.
Sim. Quando estiver em casa, pois agora estou em um quarto de hotel. Em Londres. Aguardando para retomar o trabalho. O trabalho no trem. O dia está lindo. Quero dar uma volta, mas estou com um sapato novo, muito apertado. Sim. Aquela criança que caminhava decidida, virou um adulto que decide ficar no hotel pra não machucar o pé.
Passeio pelo canal, perto da estação. Estava gostoso, até que recebi um telefonema com uma notícia, não grave, mas digamos, desagradável. Dei meia volta. Fiz marcha ré. Voltei para o hotel. Mas vou me fazer de avestruz por um tempo.
Muitas vezes, me faço de avestruz, pra ver se certos problemas desaparecem, como uma tempestade que se dissipa e é seguida por tempo bom. Mas não, eles vão se acumulando sem resolver. Coitada da avestruz, quando tirar a cabeça do buraco, vai se dar conta que o corpo inteiro está enterrado. Será que é verdade essa história de avestruz colocar a cabeça em um buraco, pra se esconder? Vai ver que está apenas procurando comida, ou aquecendo a cabeça. Vou procurar.
Não. Tudo ilusão. Curiosos de curiosidades inúteis, procurem a explicação.
Então, voltando... aquele menino decidido, virou o cara que quer ficar no hotel ao invés de descobrir a cidade e que gostaria de enterrar a cabeça na areia até a tempestade passar.
Mas fiz o tal passeio e o sapato nem incomodou tanto assim. E sempre observo algumas coisas quando caminho por aqui. Tudo parece espaçoso. Tem espaço
para as pessoas, para as construções. Na rua, ninguém te olha estranho pela forma como você está vestido,
por exemplo. Na verdade, acho que ninguém te olha, simplesmente. E me parece que pessoas de classes diferentes compartilham um mesmo
espaço aparentemente sem que isso seja uma questão. Por exemplo, os restaurantezinhos chiques
têm tanto os clientes chiquezinhos quanto os operários da construção ao lado.
Acho interessante. Ou, vai ver que esse perímetro da estação de trem é mais popular, com mais compartilhamento de espaços,
justamente. Nossa... essa minha análise geosocial deve ser de uma
superficialidade abissal. Ou seja, cai fundo, deslizando pela superfície do abismo.
Ai, chega. Tudo difícil, hoje. Difícil de escrever. Difícil de encontrar uma foto. Difícil. Será que hoje era melhor ter deixado esta página vazia?
Isso foi quinta, 24 de março. 2022. Ligeiramente trêmulo por dentro, como se prendesse uma criança que quer sair e enfrentar o mundo.

Não. Não era melhor ter deixado a página vazia não. Adorei esse boletim. Muito. De verdade. Aquele menino não cresceu não. Ainda bem. Tá pulsando aí dentro desse corpo grande. Será que não foi ele que te impulsionou, te empurrou, como quem não quer nada, a criar essas páginas vazias? Queria assinar aqui Anam. Mas não sei se aparece meu nome... aparece?
ResponderExcluir<3
ExcluirVocê aparece como anônima... mas sei que você é você :)
Que pena ! Não entendi por que tiraram a foto do guri curioso, com sede de mundo que vc. Sempre foi. E agora está aí, cheio de conquistas , embora a filosofia questionadora possa atrapalhar um pouco o andar da carruagem, ou do trem
ResponderExcluirNa verdade, eu é que tinha me atrapalhado. Depois, deu tudo certo. Foi a primeira foto que publiquei no insta :)
ExcluirJustamente este blog é pra ajudar a canalizar essa "filosofia questionadora"...
beijo