Boletim de ocorrências #60

Estava pensando nesta história do tempo. Da passagem do tempo e de como ela realmente é relativa.

Porque cheguei naquela idade em que as relações e os eventos começam a ser contados por décadas. Os amigos da faculdade, já são amigos de mais de vinte e cinco anos. O encontro no Rio foi há quase dez anos. As crianças da família, já são quase adolescentes ou até já são adultas. E o cúmulo: a última visita a uma prima tinha sido há vinte e nove anos, em Salvador.

Mas talvez seja normal. A gente cresce e vai construindo sua vida, não necessariamente em volta dos pais. Coisas acontecem e decisões são tomadas. Mudanças. O Brasil é grande e o mundo mais ainda. Vai ficando difícil se organizar para ver todo mundo todos os anos.

No meu caso, férias perto da família, além de ser uma forma de manter laços, acompanhar e fazer parte da vida de pessoas que amo, também são uma ocasião de tentar resolver questões pendentes. Nem sempre é possível, nem sempre é agradável, mas é sempre necessário.

Acho que esse é o ponto principal com a família. E com os amigos também: manter laços, acompanhar e fazer parte da vida do outro.

Mas disse que a passagem do tempo é algo relativo porque, desta vez, resolvi tirar férias nas férias. Quero dizer: correr atrás dos encontros e criar novas lembranças com pessoas que fazem parte da minha vida, mas que estão longe. Então, quando reencontrei a prima depois de vinte e nove anos, percebemos que, neste caso, as coisas não tinham mudado tanto assim entre nós. Não nos estranhamos. Sempre moramos longe. Os encontros sempre foram um momento especial. Desta vez não foi diferente, apenas demorou mais para acontecer.

[Relendo esse parágrafo, leio "não nos estranhamos" e lembro que estranhar em espanhol é sentir falta, ter saudade. Será que não fizemos falta um para o outro?]

Então... agora, estou em Salvador. E, sim, algumas coisas mudaram. O céu mudou. As lembranças mais fortes que tenho daqui são das comidas, dos sorvetes e do céu. Ao anoitecer, o céu de fevereiro ficava de um verde escuro, diferente de tudo o que eu tinha visto antes. Agora, mais de um quarto de século depois, o céu está como qualquer céu.

As outras lembranças daqui são de primeiras vezes. A primeira viagem sozinho, três dias de ônibus para atravessar o Brasil. O primeiro casamento a que assisti, sem contar o dos meus pais, ainda no ventre. O primeiro carnaval, em que percebi que carnaval podia ser legal. O primeiro coentro, um trauma que continua até hoje.

O que mudou, então, além do céu?

Eu mudei.

Agora sei melhor quem sou, mesmo que frequentemente ainda perdido ou confuso.

Agora tenho um passado, tenho uma história. Uma vida pra contar, se alguém quiser ouvir.

Ela mudou.

Soube tirar lições das experiências e cresceu guardando sua personalidade acolhedora.

Nós mudamos... mas entre nós parece que nada mudou.

Simples assim.

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