Boletim de ocorrências #59
Acordei super cedo. Cedo, tipo cinco e meia da manhã. Daí, fiquei alguns minutos colado nas redes sociais. Abri a janela e vi o sol na copa das árvores, o céu azul e pensei que seria um bom momento para escrever um boletim.
Só que entre eu achar que estava inspirado e vir aqui, já não sei mais o que dizer. Queria descrever algumas situações com um túnel do tempo. Com uma cápsula que me transportasse para os lugares do passado. A boate que fechou, a fila da festa, o restaurante da madrugada, a locadora de vídeo. É que férias, rever amigos, estar na cidade em que vivi há vinte anos, é claro, me deixa saudosista.
Mas ao abrir o documento no computador, a página não estava vazia. Tinha algumas ideias anotadas, provavelmente para um momento sem inspiração. Estava escrito assim:
“Olha, se tem um bicho que eu não tenho pena é aranha.”
E uma lista de palavras relacionadas ao tema aranha. É que eu sempre tive uma espécie de fobia de aranha. Quer dizer, sempre não. Desde que eu tive a ótima ideia de assistir sozinho, à noite, àquele filme: Aracnofobia. Quis provar pra mim mesmo que era uma criança corajosa e passei mais de vinte anos em pânico na presença de uma aranha. Mas um medo daqueles, de ficar paralisado. Acho que isso diminuiu gradualmente, depois que fiz um tratamento com homeopatia. E claro, morar na França ajuda. Desde que moro lá, nunca mais vi uma aranha maior que uma moeda. Nada daquelas aranhas que pulam, do tamanho da minha mão, ou de caranguejeiras gordas, com patas peludas. As aranhas da França não são dignas de nota.
Falar disso não deixa de ser um túnel do tempo. Mas não era assim que eu tinha imaginado. Então vamos mudar de assunto! Entrar novamente na cápsula e viajar para um momento mais interessante. Ou inusitado. O show da Rogéria no Enigma. A sopa no Van Gogh com os amingos. As saídas de clown. Como seria o André do presente indo visitar momentos do André do passado?
E isso me faz pensar de novo na coisa de ser adulto e viver pra resolver problemas e pagar contas. Mas não é só isso. Não pode ser. Entre um e outro, paro e respiro. E penso.
Penso que preciso colocar em prática a decisão de aproveitar mais o presente. Alimentar a capacidade de sonhar e investir mais no sonho, enquanto ainda há energia para investir no sonho. Porque se eu esperar não ter mais nenhum problema e nenhuma conta pra pagar eu só vou desfrutar da vida no caixão.
Olha, que motivacional! Vou virar coach.
Que o coach bom mesmo é aquele que te ensina a fazer o que ele não conseguiu. A pessoa que nunca teve um relacionamento saudável de mais de dois meses, dando lição pra encontrar o parceiro ideal. O cara que faliu a família inteira com sua barbearia slash cervejaria artesanal slash espetinho vegano, te ensinando a ser o novo milionário.
Bom... está na hora de começar o dia. Último dia da primeira etapa das férias. Problemas pra resolver? Temos. Mas com mais leveza. Entremeado de boas companhias, lugares legais, comida gostosa. Porque preciso ter lembranças boas desse momento. Para, daqui uns vinte anos, poder entrar na minha cápsula do tempo, viajar pelo túnel e ficar contente de vir aqui novamente.
A insolação feliz na saída do bloco da Lage.
A pizzaria em que “não trabalhamos com baldes de gelo”.
Ser criança novamente com a Joa e o Joca.
As viagens com a Rose.
A cuca de uva.

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