Boletim de ocorrências #64

As mulheres têm uma vida difícil. Alguém aqui já se depilou com cera, pra saber o que é ser uma mulher de verdade? Eu já.

Um dia, encontrei um pote de cera em casa e achei que seria uma boa ideia depilar as axilas. Li as instruções, que eram bem simples, e lá fui eu. Bastava esquentar a cera, passar, esperar um pouco e arrancar. Fácil como tirar doce de criança.

Esquentei a cera, peguei aquele palito de picolé que estava grudado no pote e espalhei a cera na minha axila esquerda. Passei bastante, pra cobrir bem os pelos, que são relativamente compridos. Como sou uma pessoa que não gosta de perder tempo, enquanto a cera ia esfriando um pouco na axila esquerda, passei também uma camada generosa de cera na axila direita. Isso, claro, sem baixar o braço esquerdo, pra não ficar com o sovaco colado. Muitos anos de yoga para conseguir dominar o corpo desta forma.

Daí, sem baixar o braço direito, fui arrancar a cera do outro lado.

Bastou um segundo, meio centímetro de depilação (se é que dá pra chamar de depilação o que aconteceu naquele dia) para eu entender tudo. Tudo o que eu tinha feito errado ali. O comprimento dos pelos, a quantidade de cera, tudo.

É, não foi uma depilação. Foi o massacre da serra elétrica.

O pior, foi que depois de conseguir arrancar um centímetro de cera, à custa de lágrimas, sangue e estupefação, me dei conta que tinha a axila inteira para tirar. E não apenas isso. Ainda tinha o outro lado.

Bem... sobrevivi. Essa é uma história engraçada, que diverte meus amigos, quando contada ao vivo. Mas não era disso que eu queria falar hoje.

O tema da semana era... o dia internacional da mulher. Foi o dia de ler publicações que felicitam as mulheres por serem fortes, guerreiras, empoderadas, sem perder a sensibilidade e a beleza. Dia de distribuir flores para todas as mulheres que nos cercam.

E o que a depilação da minha axila tem a ver com isso? Nada.

Quer dizer... primeiro que não é dia da mulher, né. É dia de luta pelos direitos das mulheres, ou dia de luta contra a opressão das mulheres. Opressão das mulheres pela sociedade patriarcal, com o suporte do sistema capitalista, se a gente quiser ser mais específico. Então, parabéns, mulher! Por resistir.

E depois, pensa no tempo e na energia que uma mulher perde, tendo que correr atrás de reconhecimento. Para ser considerada aquelas coisas que falei lá, forte, guerreira, empoderada, bonita, sensível, e todo o resto que fará dela uma Erin Brockovich. A depilação entra aí, junto com a maquiagem, o salto alto, a escova progressiva ou a transição capilar, a metade do salário pelo dobro do trabalho, a casa, os filhos, a carga mental, a síndrome de impostora, o botox em dia, a sobrancelha da moda, a unha de gel, e todos os produtos que precisa comprar pra poder sonhar em chegar naquele “inchegável” das revistas (revistas? quis dizer instagram). Ainda bem que não precisa mais usar espartilho, né? Viva a liberdade da mulher!

Falando em espartilho, isso tudo é sem mencionar a violência. E o medo que deve ser. Medo de andar na rua, de pegar um táxi, de morrer ao contato com um homem... ia dizer desconhecido, mas muitas vezes é um conhecido, mesmo. E o medo deve se multiplicar se a tal mulher for mãe de uma menina.

Pensando bem, tem que dar parabéns, mesmo.

Parabéns, guerrilheira!

Comentários

  1. Hahahahahahaha eu lembro desse episódio hahahahahahaha que tragédia!
    E que texto lindo que continua ali. Tu é sempre tu ❤️ beijos meus, da Tangerina e da Clementina 🫢🫢

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    Respostas
    1. Que feio, rir da desgraça dos outros... beijos pra ti, pra T., pra C. e pra todo mundo aí!

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  2. ah! Obrigada! Muito agradecida por ter se dado esse tempo de escrever esse episodio hilario que me fez muito rir quando vc me contou!!! e viva as mulheres que vivem em cada um! uma um uma umaumaumaumaumumaumaumaumuma...!!!

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  3. Spéciale dédicace? Je ne pouvais pas la rater.
    Amei AND Amém 💛

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