Boletim de ocorrências #65 : ELA, parte 1

Então era assim que minha mãe passava os dias.

Assim, como eu estou passando agora. Como eu passo meus dias quando não tenho obrigações. Fazendo nada. Ocupando o tempo. Passando tempo. Vivendo no vazio.

Que vida...

Mas o que foi que eu fiz hoje? Já são quatro da tarde. O que foi que eu fiz?

Acordei sete e meia, como quase sempre.

Tomei café da manhã com o Jérôme. Ele saiu para trabalhar.

A partir daí, nada mais aconteceu. Não abri mais a boca. Não emiti mais nenhum som. Será que eu ainda existo?

Decidi não ir à academia. Nem yoga, nem pilates, hoje.

Assisti a um episódio antigo de uma série. Assisti a um episódio novo. Entre um e outro, fiz um bolo de milho. Comi quase metade do bolo.

Dei uma olhada no jornal de ontem. Tentei terminar de resolver o sudoku. Não consegui. Dez para o meio dia. Comi duas torradas com molho de iogurte e chouriço. E mais bolo.

Me perdi um pouco na internet, procurando outro site para colocar o blog. Quando vi, já eram duas horas e tinha começado uma live de um canal que eu gosto no youtube. Resolvi assistir ao vivo. Depois disso, me dei conta que o dia tinha passado. Não saí de casa, não vi ninguém, não falei com ninguém.

Caminho pela casa sem fazer nada, olhando os objetos como se estivesse em um museu. Pensando na faxina que poderia fazer, nas compras de supermercado que poderia fazer, nos projetos que poderia fazer. Mas não quero, ou não consigo, fazer nada. Entro no quarto. Me jogo na cama. E pela primeira vez no dia, desde que o Jérôme saiu, eu falo.

“Então era assim que minha mãe passava os dias.”

Penso na minha mãe, depois que teve um infarto. Já tinha parado de trabalhar e a sua única atividade social regular era a academia. Até o infarto. Depois do infarto, parou. Ficou com vergonha da piedade que poderia despertar lá. Foi se isolando. Saía para caminhar todos os dias. Ia ao supermercado todos os dias. No início, de carro. Mas foi ficando muito perdida para dirigir. Depois do acidente o carro foi destruído, e ela ia ao supermercado a pé.

As compras do supermercado se tornaram uma simples formalidade. Há tempos ela já não sabia mais do que precisava. Comprava sempre as mesmas coisas. Tinha várias listas de supermercado, por todos os cantos da casa e da bolsa. Todas mais ou menos iguais. Pão, carne, tomate, cebola, nescafé...

Penso nas minhas próprias listas de supermercado. Quase sempre iguais. Pão, queijo, iogurte, fruta, cereal... Decido sair para comprar um desodorante. Descendo a escada, ao invés de ir em direção à porta, vou em direção ao sofá e ligo o computador. Começo a escrever. Volto a escrever.

[continua]

Comentários

  1. amigo, que bom que é, sempre, te ler. Adoro e sigo com você cada momento. Tenho até mesmo a sensação de conhecer tão bem sua mãe. Adoro seus caminhos. Os contornos e as chegadas sempre obvias e surpreendentes ao mesmo tempo. Vou me inteirar aqui de certas paginas vazias que não li ultimamente... beijo meu And! ah, vem ca, como é que é molho de iogurte com chouriço? e faz um bolo de milho pra mim, da proxima vez? beijo

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    Respostas
    1. ❤️ ah, AnAm, que bom que você está de volta aqui... vamos marcar esse bolo de milho, então! (e não era molho de iogurte com chouriço, era torrada, com chouriço E molho de iogurte) Beijo ❤️

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