Boletim de ocorrências #68 : ELA, parte 4 [FIM]
Vários dias se passaram desde a última vez, até que eu viesse escrever novamente aqui.
Vários dias em que me perguntei como terminar esta série de boletins sem fugir do assunto. Mas talvez eu estivesse procurando justamente uma forma de fugir do assunto.
Quando comecei a escrever este texto, estava carregado de um peso. O peso do vazio. Da impressão de uma vida oca, causada por um dia ruim. Naquele dia, senti como se eu não existisse quando estou sem o olhar do outro. Como se eu me ausentasse da vida e entrasse em um espaço sem tempo, sem nada.
Na verdade, não exatamente sem nada. Carregado. Carregado de um peso, como disse antes. De uma densidade de sensações e lembranças, como um céu com nuvens carregadas que ameaçam explodir em uma chuva súbita e forte.
Foi nessa sensação que reconheci minha mãe em mim. Reconheci certos momentos que passei com ela, nos últimos anos. Nesses momentos minha mãe compartilhou comigo suas angústias com relação ao futuro, não apenas financeiro, mas também emocional e mental. Aquela mulher que eu sempre achei tão inteligente, criativa e forte, apareceu para mim perdida e vulnerável. Ela me mostrou que por trás do aparente controle, existia muito medo.
Agora, a imagem que me vem dessas conversas é de uma descida em montanha russa, abrupta e sem freio. Inevitável. Mas em uma montanha russa a descida é abrupta, sem freio e inevitável, mas ela é controlada. Sabemos exatamente onde ela termina e que ela termina bem. É um divertimento, apesar do medo.
O medo da minha mãe era de outra ordem. Era terrificante.
Terrificante para mim, pois o medo dela despertou os meus medos e me fez olhar para o meu abismo interior.
E foi olhando para esse abismo sem fundo que eu passei os últimos meses escrevendo esse diário e puxando algumas coisas aqui para cima. E me dei conta que nem tudo o que sai do abismo é feio e perigoso. Tem beleza no fundo do abismo. Tem lembranças boas, tem tesouros perdidos, tem águas profundas com moedinhas jogadas há séculos e que guardam pedidos secretos. Tem pedidos realizados e pedidos esquecidos. Tem um mundo. Tem tudo o que tem dentro de mim.
Sim, foi isso. Me dei conta que dentro do abismo tem eu do avesso.
Não o avesso de mim, o oposto de mim, mas eu do avesso, eu pelo lado de dentro.
Esse lado de dentro que muitas vezes está como uma casa virada do avesso, desordenado, bagunçado, confuso, mas que guarda em si tudo o que é importante e que faz parte de mim. Inclusive meus medos, meus sofrimentos, minhas angústias, minhas aflições.
A dor e a delícia de ser o que é.
Hoje, voltando para casa, passei novamente na frente daquele muro grafitado. Alguém fez um novo desenho que cobriu uma parte da frase.
Agora, a frase é “O Sofrimento Inspira”.
Sozinho em casa, vou preenchendo o vazio do meu dia com palavras.
Porque descobri que o abismo é profundo, mas não é oco.
[ele é pleno]

Tem beleza no fundo do abismo.
ResponderExcluir[silêncio]
Me olhar pelo avesso.
[silêncio]
Abraço.
[silêncio] ❤️
ExcluirAcho lindo!
ResponderExcluirMerci... ❤️
ExcluirEu do avesso. Dentro de mim tem eu do avesso.
ResponderExcluirSim... 🙂
ExcluirParabéns pela coragem de olhar pro teu abismo. E quanta generosidade em compartilhar um pouco desse mergulho conosco… ❤️
ResponderExcluirObrigado, Dudu! ❤️
ExcluirQue bonito esse texto que eu ainda não tinha lido.
ResponderExcluirLindo.
AnAm ?
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