Boletim de ocorrências #72 : Enciclopédia, parte 1 [A-J]

Um abecedário. Um dicionário. Um glossário. Um manual.

De tantos outros possíveis.


A, de André. Meu nome. Nome de choro, chorinho, André do sapato novo. Nome de origem greco-latina, andros, homem, e todas as qualidades que o homem carrega: viril, forte, corajoso, guerreiro. O contrário de mim.

B, de bixa. Na infância e na adolescência, coisa feia, que não se pode ser. Mais tarde, forma como nos chamamos entre amigos desta mesma geração que precisou se apropriar dos xingamentos para sobreviver. Bee... bixa, olha isso!

C, de comer. Obsessão. Mais do que comer: mastigar e engolir. Em momentos de angústia, comer parece preencher o tempo e o espaço. Preencher, até não deixar lugar para pensar em outra coisa. Não funciona. Mas sem angústia, comer é bom.

D, de dentista. Um trauma, desde pequeno. Já adulto, fui expulso de um consultório no meio da consulta porque não deixava o dentista chegar perto. Uma broca barulhenta, no interior da sua cabeça, causando dor, só pode ser uma invenção do diabo. Hoje em dia, minha dentista sabe que preciso de muitas anestesias, antes de qualquer coisa.

E, de economizar. Minha relação difícil com dinheiro. Não sei gastar. Tenho medo de perder. E economizo, pensando no tal futuro incerto, na penúria, na escassez, na carência. Tanto, que talvez já tenha se tornado um mau hábito. Se eu ganhasse na loteria, será que conseguiria gastar?

F, de feijão. Minha comida preferida e que me faz coincidir com o abecedário da Xuxa. Comer feijão é materializar a felicidade.

G, de Gramado. Minha cidade natal. Cidade do natal. Cidade do cinema. Cidade do chocolate. Cidade das hortênsias. Cidade do artesanato. Cidade do turismo. Cidade de tudo que possa dar dinheiro. Naturalmente europeia, segundo o slogan dos anos 80, fora de uso hoje em dia.

H, de Hique. Meu primeiro irmão. Quando ele era pequeno, eu encontrava nele tudo o que faltava em mim: espontâneo, engraçado, criativo, sapeca, bonito, despreocupado. Na época, eu tinha medo pelo futuro dele, mas hoje, ele parece estar muito bem, obrigado. Nos falamos pouco.

I, de idade. Esta manhã, ouvindo um programa de rádio, alguém falou que não nos tornamos adultos, apenas adolescentes que envelheceram. Talvez seja essa a sensação. Em que idade começa a vida de adulto?

J, de Jérôme. Voltando pra casa, depois de conhecer ele, encontrei no bolso do meu casaco um velho adesivo de um coração coberto de band-aid. Ele apareceu na minha vida como um curativo. Tudo mudou, depois do Jérôme.

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