Boletim de ocorrências #37

Pronto, não pensei em mais nada para escrever. Acabou o blog.

Poderia escrever o que está passando pela minha cabeça neste instante, mas justamente quando a gente se concentra para ouvir a sinfonia infinita dos pensamentos aleatórios, é que o cérebro fica naquele silêncio. Ou naquele barulhinho de grilo, de vento, pra mostrar que está tudo vazio, como nos desenhos animados.

Eu disse sinfonia, mas na minha cabeça, em geral não é uma sinfonia, harmoniosa, bela, organizada. Aqui dentro está mais para engarrafamento, com buzinas, fumaça, gritaria. Aquela coisa que irrita e não avança. E quando é o silêncio, também não é o ventinho que eu escuto. É o zumbido eterno.

Isso foi uma descoberta, para mim. O dia em que me dei conta de que não existia silêncio na minha vida. Já falei disso aqui, acho, mas um dia, percebi que sempre tinha um barulho de fundo na minha cabeça e que talvez não fosse assim com todo mundo. Quando estou conversando, trabalhando com outras pessoas, ou ocupado com algo que faça barulho, como lavar louça, por exemplo, não percebo esse zumbido. Ele é suplantado pelo som ao meu redor. Mas quando chega o suposto silêncio, quando estou escrevendo, tentando meditar ou tentando dormir, daí eu percebo ele. Às vezes ele fica mais forte, ou mais agudo, mas em geral é constante.

Daí que eu não sei como agir com o zumbido. Será que eu devo me concentrar nele? Tentar relaxar a pressão na cabeça, com exercícios de respiração, pra ver se ele vai desaparecendo? Ou, ao contrário, devo ignorar pra ele não ganhar mais importância e tentar tomar mais espaço dentro de mim? Não sei.

Que mais?

Do que poderia falar?

Se for ler meus pensamentos imediatos vai ser... torta de bolacha.

Não qualquer torta de bolacha. Adoro qualquer uma, mas a que eu quero mesmo é a que a minha mãe fazia. Essa receita não existe. Encontrei uma parecida, mas não igual. Já fiz aqui, pela minha lembrança, também não ficou igual. Mas é bom de qualquer jeito. Amo! É o afeto, a lembrança. Sei que está fora de moda. É pavê. Não é gourmetizado. Quer dizer, a versão gourmet é o tiramisu. Delícia também.

Na verdade, quase qualquer coisa com açúcar, chocolate e farinha, você pode me dar e eu vou ficar feliz. Comer é algo que deixa feliz. Comer até ficar triste. Mas vamos mudar de assunto, que já está me dando fome. E eu acabei de almoçar.

Ok, concentra no que está passando pela sua cabeça agora. Fecha os olhos. Imagina. Escuta. Tipo um roletrando, com todos os assuntos. A roda vai ficando lenta, aquele ganchinho vai fazendo tec, tec, ... tec, de forma cada vez mais espaçada, e a roleta vai parar em um dos assuntos que estão passando por aqui. ...tec. Qual é?

Ah, mas tem isso também. Muitas vezes, não são assuntos precisos, mas uma música que fica se repetindo ad infinitum, como um disco arranhado. ...tec. Agora é uma música de circo, bem tradicional, de entrada de palhaços, com muita correria, confusão, fumaceira. Tocada com instrumentos de sopro, corneta, sax, trombone.

Trombone. ...tec.Tuba.

Me fez pensar nas manhãs de segunda, quando eu voltava pra casa depois de trabalhar a noite de domingo inteira no hotel. Atravessando o rio sena a pé. O sol nascendo. Notre Dame. E isso:

Tec.

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