Boletim de Ocorrências #40
Acho que estou com menos vontade de escrever, hoje. Esta semana, talvez.
Mas não tenho coragem de parar por uns dias, pois tenho medo de não retomar, depois.
Medo de quê? E se não retomar, qual o problema? Será que eu vou interpretar isso como um fracasso? Como um projeto que não deu certo? Aquela coisa que baixa a auto estima e te deixa arrasado por um tempo, frustrado.
Mas nada a ver! Foi, ou está sendo, legal escrever aqui e acho que quem tem lido, tem percebido que é meio terapêutico também. Divertido, por momentos, pra quem consegue me reconhecer nestes textos ou para quem consegue projetar a si mesmo nos buracos deixados pelos meus pensamentos aleatórios. E bastante simples, em geral.
Mas falando em terapêutico me dei conta que a velha história do fio, que faz quarenta boletins que eu fico repetindo, e que também vem na terapia, não é apenas por iniciativa minha. O próprio método da psicóloga (talvez da maioria das psicólogas, não sei) coloca o fio em destaque. É que no fim de cada sessão, ela tenta fazer uma síntese do que eu disse. Uma síntese não. Uma costura. Ela tenta encontrar o fio entre o que eu digo no início da sessão e o que eu digo no fim. Fazer uma relação entre esses dois assuntos e tentar ver qual é o assunto que está querendo ser dito nas entrelinhas. Ou nas linhas, mesmo. Enfim, ela busca fazer essa ligação aí. Encontrar o enredo das minhas histórias. E eu acho isso legal.
Bom, do jeito que eu gosto de controlar as coisas, espero que, depois de fazer listas de assuntos interessantes para não deixar minha terapeuta no vácuo, eu não comece a fazer tópicos ideais de início e fim de sessão, para ela poder interpretar as coisas do jeito que eu quero, né?
Acabo de lembrar, aliás, de um coreógrafo que trabalha assim. Acho que é o Jérôme Bel, não sei. Li uma entrevista desse artista que eu acho que era o Jérôme Bel, na qual ele explicava o processo de criação dele. Sempre me interessei por isso, pelos caminhos que um artista traça para chegar em uma determinada obra. Como o coreógrafo decidiu fazer tal movimento, com tantas pessoas, naquele momento da música, sob aquela luz etc. Em geral, é impossível saber de forma tão racional e objetiva assim.
Então, esse coreógrafo que eu acho que era o Jérôme Bel, disse que ele sempre imaginava o início e o fim de cada espetáculo. Ele concebia um fim que dialogasse com o início, que criasse uma leitura, um significado, que contasse uma história. Somente depois, ele pensava em como passar daquele início àquele fim. Qual o caminho poderia ser feito, quais as cenas que poderiam levar aquele início a se transformar naquele fim.
Achei interessante. Sobretudo, de ver um artista que sabia explicar seu método criativo. Claro, ele não explica como inventa essas cenas iniciais e finais, nem como desenvolve o percurso para chegar de uma à outra. Mas ele mostra um jeito concreto de trabalhar. Um jeito que cada um pode pegar para si, se apropriar, sem estar fazendo uma cópia do trabalho dele.
Sei lá, estou viajando, aqui. Enrolando pra disfarçar que não tenho assunto.
Ou será que tenho? Será que tem um assunto escondido entre as primeiras e as últimas frases desse boletim? Não sei.
Na verdade, lembrei agora, hoje queria falar da entrevista de emprego que fiz semana passada. Mas não tem muita coisa pra falar. Eu, que pensava já ter tido empregos demais, resolvi procurar um novo trabalho. Personalidade instável, que chama isso? De qualquer forma, recebi a resposta e não deu em nada. Alguém falou em frustração, nas primeiras linhas?

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