Boletim de Ocorrências #48
Hoje me vieram algumas palavras.
Palavras da
infância. Um vocabulário que em parte tem origem na colonização do sul do Brasil.
Alemães, italianos, portugueses. Mas também os bugres devem ter contribuído.
Nunca entendi direito, os bugres é uma forma pejorativa de chamar os índios? Sei, índios, agora, também é uma forma pejorativa de chamar os povos indígenas. Aliás, acho que não se diz mais povos indígenas, mas nações indígenas. Mas voltando aos bugres. Talvez seja a mestiçagem dos indígenas com outros povos. Dos colonizados com
os colonizadores. Dos invadidos com os invasores.
Entre as palavras e expressões que me vieram hoje, está o de vereda, do qual já falei aqui, que é rápido, imediatamente. Mas na mesma linha tem o debalde, que minha tia gostava de empregar jocosamente como debarde à toa, o que seria uma espécie de pleonasmo, já que debalde significa inutilmente, em vão. Eu estava ali, debarde à toa, quando decidi escrever esse boletim.
Um fristick é um lanchinho. Há uns anos, vi que tinha um aplicativo de telefone que se chamava assim. Devia ser para encomendar comida. Também já falei aqui dos fristicks que minha mãe preparava para a gente. Eram sanduíches que seria até pecado fazer hoje em dia. Dignos de um fim de noite na lancheria do parque.
Um mintsia, é um gato. Para chamar o gato, tinha que fazer um barulho parecido com psh-wsh-wsh-wsh-wsh. E eles vinham. Sabiam que seriam alimentados. Houve um momento na minha casa, em que tínhamos 20 gatos e 10 cachorros ao mesmo tempo. Eles nunca entravam dentro de casa. Ficavam no pátio ou na garagem. Se reproduziam livremente. Comiam os restos de comida. Quando nasciam os cachorros, a gente ficava com um ou dois e o resto se tentava doar. Os gatos eram mais independentes. Não lembro de termos doado gatos. Eles se acumulavam. Alguns viviam e morriam sem nem ser notados.
Dessa época, lembro do Cavanhaque. Preto e branco, como o resto da ninhada, ele tinha uma mancha preta no queixo. Essa ninhada foi aleitada por uma cadela. Imagino que a gata tenha morrido no parto, e os gatinhos precisaram de uma ama de leite. Ficaram enormes. Talvez, além do leite canino e dos restos de comida, também tenham tido o privilégio de receber vitaminas para compensar a falta da mãe. O privilégio dos órfãos.
Entre os cães, lembro da Xana e do Xerloque, dois filhotinhos da nossa cadela Xuxa. Nunca fomos muito inventivos com o nome dos cachorros: as Xuxas e as Rebecas se sucediam, assim como os Teds e os Bacanas. Então, Xana e Xerloque foram um ápice de criatividade. Uma tentativa de instaurar uma linhagem, uma assinatura para a família da Xuxa. Digo tentativa porque os dois morreram cedo. Andavam soltos, nos acompanhavam quando saímos a pé. Xana era uma bolinha de pelos, Xerloque, um típico vira-latas, branco com manchas caramelo. Um dia, dando uma ré, de carro, sentimos que a roda tinha passado por cima de alguma coisa. Minha tia, que era quem estava dirigindo, ficou arrasada. Lembro ainda da sua tristeza ao dizer que não, o cãozinho não ia sobreviver.
O outro, não recordo mais como desapareceu.
E na minha vida, também teve o Peter. Ele chegou mais tarde para mim, e foi revelador. Me foi apresentado há 20 anos, pelas mãos da sensível Patrícia Unyl e da inesquecível mestra Lucinha Raymundo. O Peter era o cachorro preferido da Ana. Ele dançava, cantava e filosofava. Dormia em uma mala cheia de palha branca. Uivava para a lua, pedia carinho e arrastava sua mala para junto de sua dona.
Ana e os cães tinham uma relação fusional. Ana e Sally, Ana e Rags, mas sobretudo Ana e Peter. Tão fusional, que se confundia quem era o animal e quem era o humano. Quando, sob os chutes de Ana, Peter morria no fim do espetáculo, primeiro o público ria. Mas logo entendia. E, chocado, guardava um silêncio estarrecido que precedia os aplausos.

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