Boletim de Ocorrências #45

Quem será que decidiu deixar as janelas de casa abertas bem no dia em que houve uma tempestade?

Quando sai, ontem, pra tomar um sorvete, olhei pras janelas escancaradas, olhei pro céu azul, olhei pro calor delicioso da tarde e pensei, não, não vou fechar. Vou deixar o ar circular e refrescar a casa pra noite abafada que vai vir.

Sorvete, vinho, conversa e o tempo passando. O calor continuava, o tempo avançando e aos poucos fui vendo aquela chuvinha de verão se aproximar. Olhei o relógio, hora de voltar pra casa, mas conversa boa, vinho bom e fui ficando mais um pouquinho e mais um pouquinho, mesmo com algumas gotas esparsas escorrendo pela janela.

Quando finalmente saí, me dei conta que estava realmente chovendo a chuva de verão. Gotas grossas, chuva que molha um pouco. Não lembrei das janelas abertas imediatamente. Primeiro pensei no meu tênis branco, que eu não queria molhar.

Saindo do metrô, a chuva já estava mais forte. Foi nessa hora que lembrei das janelas abertonas. Todas. A do quarto. A da sala. A do escritório, com o computador e todas as tomadas bem ali. Apressei o passo. Logo eu, que adoro reclamar de quem deixa a janela aberta aqui em casa, provando do meu próprio veneno.

Mas eu não reclamo das janelas abertas por causa da chuva. Eu fico imaginando que alguém vai entrar pela janela pra roubar o apartamento. Muita pretensão minha, que nesse prédio que entra e sai gente o dia inteiro, e nesse apartamento que tem uma porta praticamente de papel, que o lobo mau poderia arrancar com um assopro, a pessoa vai se dar ao trabalho de entrar pela janela.

Entrar, ou pior, tentar entrar e não conseguir. Explico: é que tem um ex de uma amiga do meu namorado, com quem isso aconteceu. Uma pessoa tentou entrar pela janela do apartamento dele e não conseguiu, escorregou, caiu e morreu. E daí que o ex da amiga do namorado passou por um inquérito policial pra provar que ele não estava envolvido na morte da pessoa que tentou entrar no apartamento dele e caiu da janela. Tipo, ele teve que provar que não estava em casa, que não tinha empurrado a pessoa da janela. Então, além do peso que deve ser saber que um ser humano morreu tentando entrar na sua casa, ele precisou provar que não tinha matado a pessoa.

Então é isso. Minhas reclamações são bastante justificadas. Não quero dar a oportunidade para alguém cair do quarto andar porque viu uma janela aberta e achou que seria uma boa ideia tentar entrar no meu apartamento por ali.

Mas ontem, deixei tudo aberto. E choveu. Mas, felizmente, quando cheguei, a chuva ainda não estava tão forte assim. Molhou a cômoda e o tapete do quarto. Molhou o chão e o tapete da sala. Mas não caiu uma gotinha no escritório, no computador e nas tomadas.

Fechei as janelas, sequei o chão e segui o baile. Fiz como se eu não fosse o cara que gosta de ficar dando lição de moral. Tipo, levei de boa. Tranquilão. Nada de grave aconteceu. Ninguém precisa reclamar de nada. Está tudo resolvido. Na paz.

Mas a tempestade seguiu durante a noite inteira. Foi fenomenal. Impressionante. Aqueles raios de filme de terror. A chuva que caía no telhado com força e sem parar. Pensei nas minhas plantinhas, recém-plantadas, na janela. Desci pra olhar. Mas estava tudo bem.

Definitivamente, tudo bem.

E hoje tem sol.

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