Boletim de Ocorrências #30
Hoje vou falar aqui da morte do meu pai.
Entre tantas coisas que estavam rodando pela minha cabeça e das quais eu gostaria de falar, como é que eu decidi começar esta semana com um assunto tão... tão... tão intenso como as últimas horas de vida do meu pai?
Essa espuma em forma de caixa de ovos, justamente, também é utilizada para fazer colchões para evitar aqueles hematomas, nas pessoas que tem que ficar deitadas muito tempo. Escaras, acho que chamam. E foi assim que cheguei na morte do meu pai.
É que eu comprei um sobrecolchão assim pra ele. Um não, dois. Dois sobrecolchões, porque o primeiro, quando ele saiu do hospital para voltar pra casa, esquecemos de recuperar e ficou lá. O segundo, levamos da casa para o hospital quando ele foi internado novamente. E quando ele faleceu, eu fiquei a manhã inteira no hospital com o sobrecolchão enrolado debaixo do braço, aguardando papéis e burocracias. Agora não lembro se voltei de Porto Alegre para Gramado de ônibus ou no carro fúnebre, com meu pai e o colchão.
Então, uma coisa foi levando à outra para que eu pensasse mais uma vez na morte do meu pai. Penso muito nisso, desde aquela época. Penso nas últimas horas dele, que eu fiz questão de acompanhar de perto, mesmo que no resto da vida a gente tenha sido tão distantes. Agora me veio à mente aqueles quadros de um artista brasileiro, que desenhou a mãe dele agonizando. Não lembro o nome, mas não deve ser difícil de achar. Não vou procurar.
Naquela madrugada, ele estava muito agitado. Na tarde anterior, a médica tinha prometido que ele poderia fumar um cigarro escondido, dentro do hospital, em um terraço, com a ajuda de alguém da segurança. Mas apenas no dia seguinte. Me pergunto se ela já sabia que não haveria dia seguinte.
Eu chamava os enfermeiros do turno da noite pra saber se eles não poderiam dar alguma coisa para o meu pai se acalmar, respirar mais tranquilo. Mas me diziam que não havia nada mais forte do que morfina nas receitas dele. Essa também tinha sido outra promessa dos médicos que ficou incompleta, que tudo seria feito para ele não sofrer.
E durante duas horas, talvez mais, eu fiquei com ele nesta agitação. A respiração rouca. As palavras incompreensíveis. Na hora não me dei conta de que é isso agonizar. Lutar para não deixar esta bolha de sabão que é a vida, voar e desaparecer. É feio. É difícil de ver. É difícil de descrever. Talvez também seja difícil de ler.
Por volta de cinco da manhã, os enfermeiros vieram para fazer coisas de enfermeiros e eu saí do quarto. Talvez tenha ligado para a França, não lembro. Quando voltei, o quarto estava silencioso. Na semi-escuridão, me aproximei da cama e tive a impressão de que meu pai tinha feito um movimento. Fiquei mais ou menos meia hora ali com ele, no silêncio e na penumbra, até ter coragem de pensar que talvez ele não estivesse mais ali comigo.
Os enfermeiros vieram e constataram o que já deviam saber. A partir daí, tudo foi rápido. O leito tinha que ser liberado para receber o próximo paciente.
Eu tentei ligar para meus irmãos, mas era muito cedo ainda, e, com o colchão enrolado debaixo do braço, fui tomar um café da manhã reforçado, para enfrentar o longo dia que viria pela frente.
É assim. Uma coisa vai levando à outra e, sem que a gente queira ou se dê conta, a semana começa com o fim da história.

Essa bolha de sabão... Incrível. " Et vos envies prennent vies" et nos vies prennent fin. O fim da historia, meu amigo tão amado, nos aproxima mais do que nunca do nosso inicio, do nosso principio, da gente embrião, agarrados ali por aquele cordão. Admiro de verdade, sua coragem, sua lucidez, sua força, sua iniciativa nesse momento pra fazer acontecer um novo começo de filho pra pai e de pai pra filho. Obrigada por dividir. Mais esse boletim. (quase que escrevi “botequim”!!!) acho que estou precisando tomar uns gorós com você! Vamos?
ResponderExcluirAnAm, sempre atenta e com um olhar poético sobre os detalhes. Contigo até a fachada da leroy merlin ganhou novos sentidos. Vamos no botequim nesta sexta?
ExcluirAiiiii André! Lembro daquele dia. Da agitação, do último cigarro prometido. A volta dele pra gramado e retorno de ambulância. Momentos difíceis mas talvez breves, diante do sofrimento de pessoas que passam anos em leito hospitalar. Pelo menos, isso nos conforta um Pouco. Intenso esse BO. Dias atrás ainda fui no cemitério, conversar um pouquinho com eles....
ResponderExcluirMomentos difíceis, que a tua presença deixou mais suportáveis, pra mim. Beijo.
ExcluirTantas ressonâncias. Colchão, enfermeiros, escaras, cada pequeno alívio possível que já é um tanto e tão pouco, tão frágil. Cada minuto que então fica imenso, cada detalhe. Pra mim, lembrança de café da manhã com Michel na padaria ao lado do hospital, depois da última noite, que sem saber já sabíamos ser a última noite. Poder então chorar no abraço do Michel. Hoje, poder revisitar levada pela tua escrita. Espaço. Bolha de sabão. Obrigada por partilhar. Por estar. Um abraço.
ResponderExcluirSão tantos detalhes que a gente guarda desses momentos, acho que justamente para poder revisitar e ressignificar. Abraço, em breve de corpo presente :)
ExcluirQuerido amigo, que linda forma de homenagem e de coragem. Coragem de seguir, de viver, de olhar para trás e de continuar a celebrar o mais bonito : a vida que sempre encontra uma maneira de seguir. Te amo.
ResponderExcluirSim, cada coisa com seu tempo, e a gente vai levando... bem cercado de amigos e amor. Beijo!
Excluir👆 sou eu Fernanda Justina...
ResponderExcluirA cada vez que quero escrever um comentário sai como anonimo ou não se publica... já cadastrei meus 7 e-mails gmails mas aida não sei o que acontece... a anônima sou euzinha 😁
Sou um péssimo administrador de site... nem eu estava conseguindo publicar comentários aqui... agora foi :)
ExcluirLindo texto
ResponderExcluirObrigado 🙂
ExcluirBah. Que difícil. Que lindo. Que soco. Que carinhoso.
ResponderExcluirMerci... ❤️
ExcluirQue comovente, André. A impermanência da vida, aproximou vocês. Muito lindo. Beijo !
ResponderExcluirSim, uma aproximação de última hora. Obrigado pela leitura, anônimo ❤️
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