Boletim de Ocorrências #31
Então... aquele silêncio constrangedor.
Será que eu ainda tenho algo a dizer depois do que escrevi ontem? Como continuar? Realmente, não sei o que falar. O que poderia ser dito, depois de algo tão definitivo? Definitivo para mim, é claro. Será que chegou a hora do silêncio? Que todo esse caminho me trouxe até aqui, até ontem? Foi para conseguir falar isso que eu precisei começar a escrever aqui? Era isso que eu precisava tirar de dentro de mim? Dividir, tornar público?
Quantas questões para colocar uma única questão: tudo o que eu tinha para dizer foi dito? Acho que não. Deve ter muita coisa ainda. Muita coisa pra colocar em ordem. Coisas aleatórias, absurdas, leves, inesperadas ou cotidianas. E também tristes, dolorosas, pesadas e difíceis. Porque a vida continua e sempre tem alguma coisinha acontecendo. Por dentro e por fora. Além de tudo o que já passou e que ainda pode aparecer por aqui.
Agora, por exemplo, lembrei das milhares de aulas de violão que minha mãe me colocou para fazer nos anos 80. Tenho a impressão que todos os anos, ela me colocava em uma aula de violão. Eu queria aprender a tocar piano, mas era em aulas de violão que ela me inscrevia. Se somasse todas as horas de aula que tive, eu deveria ser uma espécie de Mozart do violão.
Mas todos os anos, eu recomeçava praticamente do zero. Com professoras diferentes a cada vez. Lembro de uma que, agora, me parece que era meio hippie. Bonita, sentada no chão. Eu aprendia mais ou menos as mesmas músicas a cada ano. Depois desistia e esquecia tudo.
A primeira, sempre, “meu limão, meu limoeiro”, que tem apenas duas notas simples. Depois não lembro da ordem mas tinha essas, que estou cantarolando agora: “este ano, quero paz no meu coração...”, “numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo...”, “onde a terra começar, vento negro gente eu sou...”, “um coração, de mel, de melão, de sim e de não, é feito um bichinho...”, “me faz pequena, asa morena, me alivia a dor...”, “há muito tempo que ando, nas ruas de um porto não muito alegre...”, “marmelada de banana, bananada de goiaba, goiabada de marmelo...”, “estrela, estrela, como ser assim, tão só, tão só e nunca sofrer...”.
Sim, fui lembrando, e cantarolando, e percebo que até aprendi bastante música! E boas. Enfim, talvez eu ache essas músicas boas porque tenho um vínculo afetivo com elas. E embora eu não gostasse das aulas de violão, que machucava meus dedos e me parecia menos nobre do que o piano que eu queria aprender, fico grato por elas terem me colocado em contato com essas letras e essas sonoridades, que eu gosto até hoje.
E com o hábito de cantar. Cantar, eu gosto. Cantar em coral. E cantar em cena. Um personagem que, de repente, canta é uma delícia. É uma delícia, sentir que algo harmonioso sai de dentro da gente. Em quase todas as peças que fiz, tinha algum momento com uma musiquinha pra cantar. Até com voz de cachorro eu cantei. “Será que isso? Só isso? É isso!” Como era linda essa peça! Em outra, eu nem tinha personagem, estava lá apenas empurrando uma carroça. E cantando. A música mais linda da peça estava na minha cena, “pinheiros até as areias do mar...”.
Mas como espectador também gosto desta irrupção de uma música no meio de uma cena. A cena que mais me marcou em six feet under foi um velório em um porão, apenas com mulheres que fumam um e começam a cantar “calling all angels...”. No espetáculo mais recente do teatro do Soleil, descobri uma música dos Beatles que não saiu mais da minha cabeça, “because the world is round, it turns me on...”.
Assim é. Depois de um silêncio pesado, denso, a próxima palavra é música.
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Amei!
ResponderExcluir❤️
ExcluirVontade de te ouvir cantar... e de brincar de cantar junto (até faço de conta pra mim mesma que sei...)
ResponderExcluirAs aulas da Mirna em que a gente brincava de cantar estão entre minhas lembranças mais queridas daqueles tempos!
Aquele tempo tão produtivo, de cenas, de significados e de afetos... Até breve, comadre!
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