Boletim de Ocorrências #39
Estou aqui, viajando pelo feed infinito das redes sociais até que passou na minha frente um quadrinho do Calvin.
Vendo aquele quadrinho viajei por outro feed infinito. O da minha cabeça, e aterrissei lá no finzinho dos anos 80. Ou no inicinho dos anos 90, talvez. Da época em que comecei a fazer teatro no colégio. No primeiro grau.
Essa época foi marcante, pois foi a primeira vez em que eu senti que eu podia ser eu. Que eu não precisava me esconder. Sim, eu continuava me escondendo na biblioteca durante o recreio, mas eu tinha descoberto um outro espaço onde eu podia relaxar e simplesmente viver. Com prazer. Sem medo. O teatro.
Mas não era exatamente disso que eu queria falar. Queria falar do Calvin, mesmo. Porque durante vários meses, talvez um ano inteiro ou mais, eu e uma colega trocamos correspondências. Pelo correio, mesmo. Nos mandávamos cartas todas as semanas, mesmo que a gente se visse todos os dias, na aula.
Não lembro mais do conteúdo dessas cartas. Se eu procurar bem na garagem da casa da minha mãe, talvez ainda consiga encontrar resquícios dessas trocas epistolares. Mas lembro que, em algum momento, cada um de nós criou um jornalzinho, mensal acho, que a gente mandava para o outro, pelo correio. Não sei quantas edições eu fiz, mas meu jornalzinho era uma fanzine dos quadrinhos do Calvin, que saiam na Zero Hora todos os dias.
Então, todos os dias, eu recortava aqueles quadrinhos, guardava e utilizava alguns fragmentos para ilustrar meus textos. Meus textos, acho que eram como um diário do Calvin. Deviam misturar algumas histórias que eram publicadas nas tirinhas, com outras, criadas por mim, inspirado pelos quadrinhos.
Mas não foi só disso que eu lembrei. Lembrei dessa colega, a Lisiane.
A Lisiane foi minha melhor amiga, naquela época, e acho que a gente planejava o futuro, de quando seriamos escritores. Ela acreditou no sonho e perseverou. No teatro e na escrita. Escreveu e acho que escreve ainda. Escreveu um solo, produziu, atuou, não se deixou abater. Continuou. E, pouco a pouco, foi criando seu espaço. No teatro e na escrita. Não temos mais contato, hoje, mas às vezes tenho alguma notícia, no feed infinito da vida, e sinto uma admiração pela força dela.
Eu também perseverei. Não na escrita, mas no teatro. Nesse sonho que foi como uma porta de entrada para a possibilidade de viver sem medo e que virou meu ofício, por vários anos. Quer dizer, agora estou aqui, parei o teatro e estou escrevendo. Escrevendo pra mim, só, mas escrevendo. Imaginando essas pequenas crônicas sobre quase nada, sendo publicadas em um jornal.
No meu jornal imaginário. E é possível que essas crônicas, reunidas em um livro de infinitas páginas vazias, me tragam aquela famosa indicação ao prêmio nobel de literatura mental.
Mas antes disso, talvez, eu seja mais um imortal na academia brasileira de letras invisíveis.
E darei palestras, na qualidade de doutor honoris causas perdidas, em universidades de todos os planetas.
E por buracos negros intergalácticos eu entrarei e viajarei no tempo.
Como estou viajando agora, pelo feed das minhas redes individuais de pensamento. Até ficar pairando sobre toda a humanidade, sobre todo o universo, como um manto protetor.
Tudo isso, com a minha escrita, que por hoje, acaba aqui.

😘
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