Boletim de ocorrências #41
Meu deus do céu, eu estou apavorado aqui, pensando que não pensei em nada pra escrever hoje.
Estou aceitando qualquer coisa. Qualquer assunto aí. Um pentelhinho pra falar sobre. Uma merrequinha enviada pelo meu cérebro, pra eu me segurar como um pedaço de tábua em um naufrágio.
Daí, já penso no titanic. Acho que eu fui a única pessoa que assistiu titanic em um cinema de shopping, no centro de uma cidade, com a sala praticamente vazia. Mas assim, realmente, quase vazia. Era eu sentado no meio da sala e um casalzinho, lá no fundo. E tem uma razão pra isso.
É que, do mesmo jeito que a minha queimadura com água fervendo, da qual falei outro dia, essa ida ao cinema também aconteceu em um dia de jogo da copa do mundo. Também entre a frança e o brasil. Se eu fosse supersticioso, diria que tenho alguma relação cármica com competições entre esses dois países, e que é sempre a frança que ganha.
Mas o que é interessante é que eu posso dizer a data e a hora exatas em que eu assisti titanic. E a data exata em que eu queimei a perna. Um, foi dia 12 de julho de 1998. O outro, dia primeiro de julho de 2006. O primeiro foi no Brasil, então o cinema estava realmente vazio durante o jogo, as ruas vazias depois da derrota, a cidade silenciosa e triste. O segundo, foi aqui na França, a cidade em alvoroço com a vitória, buzinas por todos os lados ao sair do hospital.
É muito estranho essa coisa de saber o que você estava fazendo em uma data precisa. Quase todo mundo sabe o que estava fazendo no exato momento do ataque das torres gêmeas em 2001. Eu, fazendo fila do lado de fora de um shopping center, esperando abrir pra comprar ingressos do Porto Alegre em Cena. Todo ano aquela correria. Chegar antes do shopping abrir, tentar saber qual porta do shopping ia abrir primeiro. Todo mundo reclamando dos furões de fila. O medo de não conseguir ingresso para os espetáculos mais esperados. E depois, na porta dos teatros, a “fila dos sem”, pra tentar pegar os lugares que sobravam. E também as festas. O ponto de encontro do lado do gasômetro, depois das peças. O pisco...
Olha só, falei de titanic, passei pelas torres gêmeas e acabei nas lembranças do porto alegre em cena. Mas, na verdade, quando falei em merrequinha, lá em cima, pensei que ia enveredar por outro assunto nada a ver com tudo isso.
Pensei que ia falar do fato de eu ser o tipo de pessoa que se abaixa pra juntar uma moeda que encontra no chão.
Nossa, eu sou muito aleatório, mesmo. Nem eu aguento.
Mas falando em enveredar, minha vó Linda falava pra gente fazer as coisas de vereda. Tipo, sair da chuva de vereda. Muito depois, vi que a expressão existe no dicionário e tudo. De vereda é rapidinho, agora. Acho que vem do fato que a vereda pode ser um caminho, às vezes mais curto para chegar em algum lugar mais rápido. Um atalho.
Só que quando penso em enveredar, a imagem que me vem não é de um atalho, mas de um monte de mato onde a gente entra e meio que se perde tentando achar o caminho. Se enrosca no cipó. Sem duplo sentido. Enrosca no cipó mesmo. Pelo menos é o que acontece quando enveredo por um pensamento. Vou indo, me perdendo. E me prendendo também. Me prendendo em um pensamentinho, em outro. Me desvencilhando de um, de outro e procurando o caminho. Mas talvez essa imagem esteja errada. Talvez enveredar seja pegar o caminho mais curto para chegar em um ponto. Pensar na coisa, analisar a coisa, concluir a coisa.
Então vou concluir a coisa por aqui, de vereda, que eu já enveredei demais por esse caminho, hoje.

🧡
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