Boletim de Ocorrências #44
Então... há uns dias assisti a um espetáculo do Joël Pommerat. A versão dele da cinderela.
Nessa peça, ele coloca o foco nas crenças às quais a gente se prende, custe o que custar, a partir do que a gente compreende de um evento. E como a gente pode se fazer mal com isso. E o percurso do luto da personagem, até ela entender que não precisa se martirizar para não parar de pensar na mãe morta que, sem esse esforço, correria o risco de cair no esquecimento.
Mas o que eu achei mais bonito, foi o momento em que ela se dá conta disso. Isso ocorre de forma espelhada. Cinderela dá a real para o príncipe, que também está iludido sobre a morte da própria mãe. Não, a mãe dele não está viajando há dez anos, sem poder voltar pra casa por causa de uma greve de transporte público. Não, a mãe dele não está tendo um problema que a impede de telefonar a cada noite. Não. A mãe dele está morta! É isso, sua mãe morreu.
É emocionante, embora também seja bem engraçado, como a peça inteira, ver a ficha caindo nos dois. O príncipe confirma que, realmente, bem que ele se dizia que tinha alguma coisa estranha nessa história de greve. E Sandra, a cinderela, admite que ela também, possa talvez parar de acreditar que pensar na mãe dela a cada cinco minutos vai manter ela viva em algum lugar. Não. A mãe dela também morreu.
Assumir a realidade permite que os dois comecem a viver.
Daí, fiquei pensando... por que esse momento me tocou tanto? Claro, é o clímax da peça, é feito pra isso. Mas enquanto todo mundo estava rindo, eu estava chorando. E não soube explicar a razão. Ainda não sei exatamente. Não entendi direito ainda, mas acho que tem a ver com isso de se apegar a uma crença, a uma compreensão do mundo que na verdade te faz mal, e insistir em levar sua vida enquadrada por esse entendimento. Custe o que custar. A despeito de qualquer lógica. Mesmo que a gente tenha que se forçar para conseguir respeitar a regra que a gente mesmo criou para preservar nem sabemos mais o quê.
Bom, cheguei a algumas conclusões nebulosas. Certamente algo a ver com minhas frustrações e minha inabilidade em relação à família. Mas também nas minhas relações pessoais cotidianas. E eu comigo mesmo, também. Ou seja, eu inteirinho! Em família, em sociedade e intimamente. Eu avisei, são conclusões nebulosas.
Mas mais importante agora: será que minhas plantinhas vão vingar? Já aproveitei, ontem, e junto com a flor que ganhei de aniversário e as suculentas que roubei no pátio do prédio, plantei umas sementes de manjericão, de rabanete e uma coisa que encontrei em um pacotinho, onde escrevi “flores de Marselha, 2021”. Vai saber...
Nem lembro de ter ido a Marselha em 2021! É que vivemos um ano infinito desde de 2020. Sei que durou dois anos, mas perdi completamente a noção do tempo, do que aconteceu quando.
E falando em rabanete, fiquei muito decepcionado (e me sentindo um pouco idiota) quando, no ano passado, me dei conta que cada semente de rabanete que eu tinha plantado ia dar apenas um rabanete. Ou seja, não ia ser como no supermercado e ao invés de ter oito maços de rabanete, fiquei apenas com oito rabanetes. Mas plantados com o suor de minhas próprias mãos. No vasinho da janela da minha casa.
E este ano não vai ser diferente. Se tudo der certo, vamos fazer uma saladinha de rabanete, que comeremos bem felizes e com orgulho da nossa produção agrícola. Fui!

💙
ResponderExcluirTão Técnica Alexander tudo isso… ou é minha leitura… ou os dois 😊.
ResponderExcluirHelô no celular
Ah sim, é verdade... essa coisa de se observar, rever os hábitos e estar mais consciente, né?
ExcluirA não ser que tu estejas falando dessa coisa de plantar seu próprio rabanete :)